
Na manhã em que comecei meu emprego dos sonhos, meu novo chefe entrou na sala segurando uma fotografia minha saindo de uma capela às 2h17, e perguntou por que eu havia assinado o nome dele.
Eu ainda sentia gosto de bourbon na boca quando acordei. O teto era alto demais, com vigas de carvalho claro e um lustre que provavelmente custava mais do que todos os meus empréstimos estudantis juntos. Ao meu lado, um homem dormia de costas, o cabelo escuro espalhado no travesseiro.
Rhett.
Eu conhecia apenas o primeiro nome.
Na noite anterior, ele havia dito que minha opinião sobre rock moderno era “agressivamente errada”. Eu respondi que o ego dele precisava de uma equipe de segurança. Depois vieram a discussão, o uísque, o elevador privativo e um beijo tão intenso que parecia uma competição.
O resto estava quebrado em flashes: champanhe, uma limusine preta, risadas, a mão dele segurando a minha e as luzes de uma capela pequena.
Então, nada.
— Meu Deus — murmurei.
— Você disse isso três vezes ontem — respondeu ele, sem abrir os olhos.
Puxei o lençol até o queixo.
— Você é insuportável.
— E você continua aqui.
Minha roupa estava jogada por todo o quarto. O vestido havia perdido uma alça, então vesti a camisa branca dele. O tecido chegava quase aos meus joelhos e tinha um cheiro discreto de cedro e sabonete caro. No meu pulso, a pequena chave dourada presa à pulseira da minha mãe batia contra a pele, marcando cada passo nervoso.
— Pode ficar com a camisa — disse Rhett, já vestido com calças pretas.
— Prefiro queimá-la.
— Você está usando.
— Temporariamente.
Cheguei ao elevador. Quando as portas se abriram, uma menina de pijama roxo estava do outro lado, abraçada a um coelho de pelúcia pela orelha.
Ela olhou para mim, para a camisa e depois para Rhett.
— Você é a nova namorada do papai?
— Ela não é minha namorada — respondeu ele.
— Então por que está usando a camisa dele?
— Excelente pergunta — falei.
A menina sorriu.
— Sou Maisie. Você sabe fazer panquecas?
— Não.
— Eu também não — disse Rhett.
— Vocês já concordam em alguma coisa.
Fugi antes que a manhã pudesse ficar pior.
Ficou.
Duas horas depois, entrei na Northstar Sound para o primeiro dia do trabalho que havia perseguido durante seis meses. Minha supervisora me conduziu por um corredor de vidro, falando sobre artistas, contratos e prazos.
— O diretor executivo gosta de conhecer pessoalmente as contratações criativas — explicou ela.
— Perfeito.
Ela bateu numa porta preta.
— Entre — disse uma voz lá dentro.
Meu estômago afundou.
Rhett estava sentado atrás da mesa.
Não o homem da festa. Não o desconhecido do quarto. Rhett Halston, ex-astro de estádios, fundador da empresa e meu novo chefe.
Minha supervisora saiu. Eu deixei meu crachá sobre a mesa.
— Eu me demito.
— Seu primeiro dia começou há onze minutos.
— Um recorde pessoal.
— Sloane, eu não sabia que você trabalhava aqui.
— E eu não sabia que você era dono do lugar.
Ele abriu uma gaveta e tirou um envelope amarelo. Não o entregou de imediato. Primeiro, fitou meu pulso.
— Recebi isto meia hora atrás.
A fotografia mostrava nós dois diante de uma capela branca. O horário digital marcava 2h17. Abaixo dela havia uma cópia oficial com duas assinaturas.
Minhas mãos começaram a tremer.
— Diga que isso é falso.
Rhett se levantou.
— Chamei minha advogada.
— Por quê?
Ele empurrou os papéis na minha direção.
— Porque, segundo quem enviou isto, nós fizemos algo naquela capela que nenhum dos dois consegue lembrar…
A maçaneta girou, e uma mulher de terno escuro entrou carregando uma pasta vermelha. Ela colocou a mão sobre o fecho, pronta para abri-lo…
PARTE 2
A mulher abriu a pasta vermelha, retirou três folhas e colocou a primeira diante de mim.
— Meu nome é Vivienne Shaw — disse ela. — Sou a advogada do senhor Halston. E preciso que ambos mantenham a calma.
— Isso nunca começa bem quando alguém diz para manter a calma — respondi.
Rhett ficou junto à janela, os braços cruzados. A chuva fina riscava o vidro atrás dele, e a cidade parecia um borrão de luzes cinzentas.
Vivienne apontou para a folha.
— O documento foi registrado às duas e vinte e três da manhã. A cerimônia aconteceu seis minutos antes.
Senti a pulseira apertar meu pulso quando fechei os dedos.
— Cerimônia?
— Sim.
— Você está dizendo que nós nos casamos?
— Estou dizendo que o registro indica isso.
Rhett passou a mão pelo rosto.
— Deve haver algum erro.
— O tabelião confirmou as assinaturas, as testemunhas e a identificação de vocês.
— Eu mal me lembro de ter entrado naquela capela — falei.
Vivienne me observou com atenção.
— Esquecimento não anula automaticamente um casamento.
Meu telefone vibrou sobre a mesa. Havia seis chamadas perdidas de Paige e três mensagens.
“Por que você está em todos os portais com Rhett Halston?”
Virei a tela para baixo.
— Problema número dois — disse Vivienne.
Rhett se virou.
— O fotógrafo.
— Um fotógrafo autônomo seguiu vocês depois da festa. Tem imagens do carro, da capela e da saída. Se ele vender tudo, a notícia estará em todos os lugares antes do almoço.
Soltei uma risada sem humor.
— Primeiro dia na empresa e já virei a esposa bêbada do diretor executivo.
— Você não vai perder o emprego — disse Rhett.
— Eu pedi demissão.
— Eu não aceitei.
— Isso não funciona assim.
— Funciona na minha empresa.
— Esse é exatamente o problema.
Vivienne ergueu a mão.
— Há uma questão mais urgente.
A expressão dela mudou. Rhett percebeu antes de mim.
— Maisie? — perguntou.
Vivienne assentiu.
— Arthur apresentou hoje de manhã uma petição de guarda.
O rosto de Rhett perdeu a cor.
— Meu pai?
— Guarda parcial. Ele está pedindo autoridade principal sobre a menina, alegando que sua rotina de turnês, a exposição pública e seu histórico de festas demonstram instabilidade.
— Ele quer tirar minha filha de mim — disse Rhett.
— Quer convencer o tribunal de que você não consegue protegê-la.
Olhei para a fotografia sobre a mesa.
— E o casamento ajuda a acusação.
— Um casamento impulsivo com uma desconhecida ajuda — respondeu Vivienne. — Um casamento estável pode ajudar Rhett. Um divórcio imediato pode parecer uma prova de que Arthur tem razão.
— Você quer que continuemos casados? — perguntei.
— Por enquanto.
— Nós nos conhecemos há menos de um dia.
— Conhecem-se há menos de um dia oficialmente. Isso não significa que tenham de agir como estranhos diante da imprensa.
Rhett soltou uma risada curta.
— Você está propondo que finjamos uma vida conjugal?
— Estou propondo que não entreguem sua filha a um homem que está esperando exatamente este escândalo.
O silêncio ficou pesado. Do lado de fora, um trovão fez as janelas vibrarem.
Rhett se aproximou de mim.
— Sloane, você pode ir embora agora. Eu encontrarei uma solução.
— E Maisie?
Ele desviou o olhar.
— Ela é minha filha.
— Não foi isso que perguntei.
Pela primeira vez, vi medo por trás da arrogância dele.
Vivienne colocou outra fotografia sobre a mesa. Nela, Arthur conversava com o mesmo fotógrafo em frente a um restaurante, duas noites antes da festa.
— Ele sabia que vocês seriam fotografados — disse ela. — Talvez tenha preparado tudo.
— Para me destruir? — perguntei.
— Para destruir Rhett.
— Por causa da guarda?
— E por causa da empresa. Arthur ainda possui uma participação considerável na Northstar Sound. Se Rhett perder a guarda e for considerado incapaz de administrar os negócios, o conselho poderá afastá-lo.
Rhett olhou para a imagem.
— Meu pai não faria isso.
Vivienne fechou a pasta.
— Ele já fez.
Naquele instante, uma mensagem chegou ao meu telefone de um número desconhecido.
“Pergunte a Rhett por que ele escolheu você.”
Logo abaixo havia uma segunda linha.
“E pergunte o que aconteceu exatamente às 2h17.”
Mostrei a tela. Rhett ficou imóvel.
— Eu não escolhi você — sussurrou.
— Então quem escolheu?
Vivienne encarou a porta, como se esperasse alguém do outro lado.
— Há uma gravação da capela — disse ela. — E o remetente acabou de informar que vai publicá-la em uma hora…
PARTE 3
— Reproduza agora — falei.
Vivienne conectou o computador ao monitor da sala. Rhett permaneceu ao meu lado, tão imóvel que parecia esculpido na janela escura.
A gravação começou sem som. A imagem da capela estava granulada, mas o relógio no canto marcava 2h16. Eu apareci primeiro, caminhando com firmeza. Não parecia bêbada. Segurava a pequena chave dourada da pulseira entre os dedos.
Rhett entrou logo depois.
— Eu estava andando normalmente — disse ele.
— E eu também — respondi, sentindo a garganta fechar.
Na tela, ele colocou duas mãos sobre o balcão da capela.
— Você tem certeza? — perguntou o Rhett da gravação.
Eu me vi levantar o queixo.
— Tenho.
O Rhett ao meu lado virou-se para mim.
— Certeza de quê?
Vivienne aumentou o volume.
— Se fizermos isso, meu pai não poderá dizer que estou sozinho — falou Rhett na tela. — Mas você pode perder o emprego, sua reputação e qualquer chance de uma vida normal.
— Minha vida normal acabou quando vi os documentos que Arthur escondeu — respondi.
O sangue sumiu do rosto de Rhett.
— Que documentos?
Na gravação, eu olhei diretamente para a câmera da capela.
— Os comprovantes de que ele desviou dinheiro do fundo de Maisie durante três anos. Eu copiei tudo antes de sair da sala dele.
Vivienne pausou o vídeo.
Ninguém respirou.
— Você sabia? — Rhett perguntou.
— Eu não sabia que tinha visto isso — respondi. — Não conscientemente.
A lembrança veio como uma porta arrombada: Arthur na festa, o telefone aberto sobre a mesa, uma pasta com o nome de Maisie e números transferidos para empresas de fachada. Eu trabalhara como consultora temporária para a fundação de Rhett antes de ser contratada pela Northstar. Naquela noite, havia reconhecido os nomes e fotografado as páginas.
— Eu estava investigando a fundação — expliquei. — Arthur descobriu. Quando me encontrou no corredor, disse que eu perderia o emprego se falasse.
Rhett me encarava.
— E você decidiu se casar comigo para me ajudar na disputa pela guarda?
— Decidi porque ele estava usando a sua reputação para tomar Maisie e esconder o roubo. A advogada da capela explicou que um cônjuge presente poderia testemunhar sobre a rotina da casa. Você pediu ajuda. Eu aceitei.
Vivienne retomou a gravação.
Na tela, Rhett segurava minhas mãos.
— Não estou pedindo que me salve — dizia ele. — Estou pedindo uma noite de coragem.
— E amanhã?
— Amanhã eu lhe darei uma saída.
— Não se puder provar que eu fiz isso por dinheiro.
— Sloane, eu nunca compraria você.
— Então não me trate como alguém que precisa ser comprada.
O celebrante fez as perguntas. Nós respondemos claramente. Às 2h17, assinamos o registro.
Eu comecei a chorar sem perceber.
— Por que não me lembro disso?
Vivienne avançou o vídeo. Um homem apareceu junto à porta lateral da capela. Era Caleb, o assistente de Arthur. Ele segurava meu copo e olhava para os lados antes de despejar alguma coisa dentro.
Rhett bateu a mão na mesa.
— Ele me deu o bourbon.
— E colocou algo no meu — falei.
Vivienne pausou a imagem.
— O laboratório encontrou vestígios de um sedativo de curta duração na garrafa apreendida pela polícia do hotel. Não apagou a cerimônia. Apenas apagou a memória dela.
Rhett fechou os olhos.
— Meu pai tentou dopar você.
— Tentou garantir que você parecesse irresponsável e que eu parecesse uma oportunista — respondeu Vivienne.
Naquele momento, o telefone de Rhett tocou. Era o segurança da casa.
Ele atendeu.
— Fale.
A voz do outro lado saiu trêmula.
— Senhor Halston, Arthur acaba de chegar. Trouxe dois oficiais e uma ordem emergencial. Ele está levando Maisie agora.
Rhett ficou pálido.
— Não deixe ninguém tocar nela.
— Já entraram na propriedade.
A ligação terminou.
Vivienne pegou a pasta.
— Temos a gravação, os documentos e o exame. Mas se a ordem foi assinada, precisamos chegar antes que eles saiam.
Rhett correu para a porta. Eu o segui, ainda segurando a pulseira da minha mãe.
— Sloane, fique aqui — ele ordenou.
— Você acabou de dizer que não precisava ser salvo sozinho.
Ele me encarou.
— Eu não sei o que vai acontecer.
— Nem eu. Mas agora sei exatamente por que fui escolhida.
Descemos pelo elevador enquanto Vivienne ligava para a polícia. Quando as portas se abriram no estacionamento, o telefone dela tocou.
Ela ouviu por cinco segundos e parou.
— O que foi? — perguntei.
Vivienne olhou para Rhett.
— A ordem de guarda não veio do tribunal de família.
— Então de onde veio?
Ela apertou o telefone contra o peito.
— Foi assinada por um juiz que morreu há oito meses. E alguém acabou de emitir uma segunda ordem contra você…
A carta chegou quando eu já tinha encontrado paz…
Eu achava que a verdade seria o fim de tudo. Mas o que veio depois mudou a maneira como eu entendia família, culpa e liberdade.
“A porta estava aberta.”
E, pela primeira vez, ninguém precisou fugir.
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