
Quando entrei no meu escritório à uma da manhã, encontrei minha secretária dormindo sobre documentos que poderiam destruir o império que eu construí. A tempestade castigava Boston havia onze horas, e a água escorria pelas janelas do edifício como se a cidade inteira estivesse derretendo.
Eu não deveria estar ali para salvá-la.
Deveria estar ali para demiti-la.
Passei as últimas três semanas observando Erin Walsh desaparecer diante dos meus olhos. Ela chegava tarde, esquecia compromissos, deixava o café esfriar e usava roupas largas demais para o próprio corpo. Erin havia sido a pessoa mais precisa da minha empresa durante três anos. Sabia quais telefonemas podiam me alcançar, quais contratos exigiam minha assinatura e quais homens jamais deveriam ser deixados sozinhos perto do meu cofre.
Agora mal conseguia permanecer acordada.
— Leve-me ao escritório — ordenei ao motorista, pouco depois da meia-noite.
— O senhor não prefere ir para casa, senhor Cross?
— Se eu preferisse, não teria mandado você virar nesta rua.
A Atlantic Harbor Logistics estava quase vazia quando cheguei. O segurança do saguão levantou-se depressa, assustado com minha presença.
— A senhorita Walsh ainda está no andar executivo?
Ele hesitou.
— Sim, senhor. Eu tentei mandá-la para casa, mas ela disse que precisava terminar uma coisa.
— E você deixou uma funcionária dormir no meu andar?
— Ela não parecia bem, senhor.
Aquilo me irritou mais do que deveria. Fraqueza era uma porta. Eu havia passado quinze anos trancando todas as portas da minha vida.
Usei meu cartão no elevador privativo. O metal das paredes refletia meu rosto pálido, a gravata torta e o pequeno relógio de bolso preso à corrente do colete. Meu avô me dera aquele relógio antes de morrer. O vidro tinha uma rachadura em forma de raio, e o mecanismo fazia um estalo seco a cada minuto. Eu o carregava porque algumas coisas quebradas ainda podiam marcar a hora certa.
As portas se abriram em silêncio.
Uma luz fraca piscava perto da recepção. Minha mão foi até a pistola antes que eu pudesse impedir. Caminhei pelo corredor, ouvindo a chuva, o ar-condicionado e o estalo distante do relógio.
Erin dormia junto à mesa de vidro, com a cabeça apoiada sobre manifestos de transporte. O rosto estava magro. Havia sombras profundas sob seus olhos. Um casaco de lã cor de ferrugem caía de seus ombros, e uma das mangas escondia sua mão.
Aproximei-me fazendo barulho de propósito.
Ela não acordou.
— Erin — chamei.
Nada.
Na bolsa de couro aberta junto à cadeira, vi uma pasta dobrada, presa por um clipe dourado. O símbolo do Hospital Geral de Massachusetts estava impresso no canto. Por um instante, pensei em ignorá-la. Assuntos particulares não eram da minha conta.
Então Erin soltou um gemido baixo e levou a mão ao ventre.
Meu corpo ficou imóvel.
Puxei a pasta apenas o bastante para ver a primeira página. Havia uma fotografia granulada em preto e branco, mas não consegui entender o que representava. Abaixo dela, algumas linhas estavam cobertas por uma etiqueta branca.
Erin se mexeu.
— Não — murmurou, ainda dormindo. — Por favor, não conte a ele.
A frase atravessou meu peito.
Minha mão fechou-se sobre a pasta. No mesmo segundo, o elevador começou a subir sozinho. Alguém havia usado um cartão no térreo.
Erin abriu os olhos, viu o que eu segurava e perdeu toda a cor do rosto.
— Senhor Cross, eu posso explicar.
— Então explique antes que aquela porta se abra.
O elevador parou. O sino metálico ecoou pelo andar vazio. Erin tentou levantar-se, mas cambaleou, agarrando a borda da mesa. Eu estendi a mão para segurá-la, e ela recuou como se meu toque fosse perigoso.
As portas começaram a se separar.
Um homem entrou no corredor, carregando uma pasta preta e usando o distintivo da segurança interna. Erin olhou para ele, depois para mim.
— Não deixe que ele veja a terceira página — sussurrou.
O homem avançou, e eu puxei a pasta para junto do peito. Meu polegar alcançou o clipe dourado. Bastava soltá-lo. Bastava descobrir por que minha secretária estava morrendo de medo…
PARTE 2
O homem do corredor parou a poucos passos de nós. Reconheci-o imediatamente: Victor Hale, diretor da segurança interna, o homem que controlava todas as câmeras, todos os crachás e todas as portas da empresa.
Ele sorriu para Erin.
— O senhor Cross pediu que eu verificasse uma intrusão — disse. — Não sabia que encontraria uma reunião particular.
— Você não foi chamado — respondi.
— Recebi um alerta do sistema.
— Então o sistema mentiu.
Victor olhou para a pasta em minha mão. Foi apenas um segundo, mas vi o movimento. Seu sorriso desapareceu antes de voltar.
Erin agarrou meu braço.
— Damien, não abra aqui.
Foi a primeira vez que ela disse meu nome em três anos.
A chuva batia no vidro com força. O casaco cor de ferrugem escorregou de seu ombro, revelando uma mancha roxa perto do pulso. Não era uma marca de queda. Eram dois círculos perfeitos, como se alguém a tivesse apertado.
— Quem fez isso? — perguntei.
Ela baixou os olhos.
— Não importa.
— Você está no meu escritório, dormindo sobre uma mesa, escondendo um documento médico e dizendo a um homem da minha segurança para não olhar a terceira página. Isso importa.
Victor deu um passo à frente.
— Senhor Cross, talvez seja melhor conversar em particular.
— Saia.
— Se a senhorita Walsh está doente, eu posso levá-la ao hospital.
Erin empalideceu outra vez.
— Não vou com ele.
A resposta saiu tão rápida que Victor ficou imóvel. O estalo do meu relógio de bolso pareceu alto demais entre nós.
Eu a conduzi até a sala de reuniões menor, no fim do corredor. Eram duas e dez da manhã. A sala cheirava a madeira molhada e café queimado. Fechei a porta, mas não tranquei.
— Você está grávida? — perguntei.
Erin encostou-se à mesa. Por alguns segundos, só ouvimos o trovão.
— Estou.
A palavra caiu entre nós.
Lembrei-me de Miami, quatro meses antes, de uma casa segura cercada pela tempestade, dos tiros no portão e de uma noite que nós dois fingimos nunca ter acontecido. Erin e eu havíamos passado três dias presos naquele lugar. Uma única noite mudara tudo, embora nenhum de nós tivesse coragem de dizer isso em voz alta.
— O bebê é meu? — perguntei.
Ela fechou os olhos.
— Você já sabe a resposta.
Meu peito apertou. A alegria chegou primeiro, breve e brutal. Depois veio o medo.
— Por que escondeu isso de mim?
— Porque alguém começou a me envenenar duas semanas depois de eu descobrir a gravidez. Porque toda vez que tentei procurar ajuda, uma mensagem chegava ao meu telefone. Porque diziam que, se eu contasse a você, o bebê seria a primeira coisa que perderia.
— Quem mandou as mensagens?
Ela abriu a bolsa e tirou um telefone barato, com a tela trincada. Mostrou-me uma fotografia: um copo de café sobre minha mesa, e um bilhete escrito à mão. Não conte ao pai. A próxima dose será maior.
Meu estômago virou.
— Você recebeu isso hoje?
— Há quatro dias.
— E continuou trabalhando?
— Eu precisava descobrir quem tinha acesso à minha sala, à cozinha e aos meus registros médicos. Se eu desaparecesse, a pessoa saberia que eu suspeitava.
Peguei a terceira página. Erin tentou impedir, mas eu já havia visto o título. O relatório falava em níveis elevados de metais pesados e risco grave para a mãe e o feto. Abaixo, havia uma recomendação para procurar a polícia imediatamente.
O mundo pareceu estreitar-se ao redor daquela folha.
— Quem preparou o café? — perguntei.
Erin respirou com dificuldade.
— Sempre o mesmo homem. Mas ele não agia sozinho.
— Diga o nome.
Ela apertou o tecido do casaco cor de ferrugem entre os dedos.
— Antes, você precisa ver uma coisa.
Erin abriu a gaveta da mesa e retirou um cartão de memória minúsculo, escondido dentro de uma cápsula vazia. Colocou-o na minha palma.
— Há uma gravação das câmeras que Victor apagou. E nela aparece alguém que você jamais suspeitaria.
Do lado de fora, a maçaneta começou a girar.
A voz de Victor atravessou a porta:
— Senhor Cross, abra. Ou vou chamar a polícia e dizer que você está mantendo uma testemunha contra a vontade dela…
Eu olhei para Erin. Ela tremia, mas não recuou.
— Se você apertar o botão errado — sussurrou —, nós dois morremos antes do amanhecer…
PARTE 3
A maçaneta parou de girar. Por três segundos, ninguém respirou.
Então Victor bateu na porta.
— Damien, não transforme isso em uma guerra.
Coloquei o cartão de memória no bolso e abri a porta apenas o suficiente para encará-lo.
— Você acabou de fazê-la acreditar que morreria antes do amanhecer.
— Eu estava tentando protegê-la.
— Proteção não costuma vir acompanhada de ameaças.
Victor olhou para Erin. Ela estava sentada, com as duas mãos sobre o ventre.
— Você não entende o que está acontecendo — disse ele.
— Então me ajude a entender.
Às duas e vinte e sete, levei os dois para a sala de monitoramento subterrânea. Eu não confiava nas câmeras do andar executivo, mas confiava no gravador analógico que meu avô instalara atrás de um painel de madeira. O aparelho tinha fita física. Não podia ser apagado pelo sistema.
A sala cheirava a poeira, óleo e metal aquecido. Coloquei o cartão no computador isolado da rede e abri o único arquivo existente.
A imagem mostrou a copa da empresa, três semanas antes. Erin entrou às sete e quarenta. Deixou a bolsa no armário e foi atender uma ligação. Victor apareceu logo depois.
Ele olhou para a porta.
Depois tirou do bolso um pequeno frasco âmbar.
Erin levou a mão à boca. Eu senti meu sangue esfriar.
Na gravação, Victor despejou algumas gotas na garrafa de água dela. Em seguida, colocou o frasco na gaveta usada pelos funcionários da limpeza.
— Não fui eu — disse Victor.
Sua voz soou fraca.
A imagem continuou. Pouco depois, minha irmã, Clara Cross, entrou na copa. Ela não tocou na garrafa. Apenas entregou a Victor um envelope e apontou para a câmera.
Victor cobriu a lente com a mão.
O silêncio na sala foi absoluto.
Clara. Minha irmã mais nova. A única pessoa da família em quem eu acreditava confiar.
— Por quê? — perguntei.
Victor não respondeu.
Erin apertou o botão que ampliava o áudio. A gravação captou a voz de Clara, abafada pela mão sobre a lente.
— Damien não pode descobrir que a criança é dele. Se ele souber, vai mudar o testamento e tirar tudo de mim.
Minha cadeira rangeu quando me levantei.
— Você queria matar meu filho por dinheiro?
Victor recuou.
— Eu só entregava o que ela mandava. Não sabia que a dose iria causar isso.
— Você sabia que era veneno — disse Erin. — Eu vi sua mensagem.
Ela tirou outro papel da bolsa. Era uma transcrição feita pelo médico, com datas, horários e os nomes das substâncias encontradas. No rodapé, havia a assinatura do doutor Alan Whitfield e a recomendação de internação imediata.
Meu telefone tocou.
Era o doutor Whitfield.
— Senhor Cross, a senhorita Walsh precisa ser internada agora. Os exames pioraram. Se ela continuar exposta, pode sofrer falência dos órgãos, e o bebê talvez não sobreviva.
Olhei para Erin.
Ela tentou se levantar, mas caiu de joelhos.
Segurei-a antes que batesse no chão. Seu corpo estava quente e leve demais.
— Chame uma ambulância — ordenei.
Victor pegou o telefone.
— Não! — gritei. — Você vai ficar exatamente onde está.
Ele congelou.
No mesmo instante, uma nova mensagem apareceu no celular quebrado de Erin. O número era desconhecido. A frase tinha apenas oito palavras: Se ela chegar viva ao hospital, Clara será a próxima.
Erin viu a tela e começou a chorar em silêncio.
Eu conhecia aquele tipo de ameaça. Não era uma tentativa de assustar. Era uma promessa.
Peguei meu próprio telefone e liguei para o único homem que poderia proteger minha irmã antes que os assassinos percebessem que o plano havia falhado.
Mas, quando ele atendeu, sua primeira frase fez meu coração parar:
— Damien, não mande ninguém para a casa de Clara. Ela acabou de desaparecer…
A gravação fez Damien ouvir a própria voz…
Eu achava que a verdade bastaria para nos proteger. Estava enganado. O fim revelou quem ainda tentava controlar nossas vidas.
“Eu sabia exatamente o que estava fazendo.”
Pela primeira vez, não consegui fugir de mim mesmo.
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