PARTE 4
O nome de Victor Duarte, meu pai, aparecia nos documentos como se ele ainda estivesse vivo.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Price tentou recuar.
— Isso é um erro administrativo — disse ele.
— Meu pai morreu há seis anos — respondi.
— Então fale com o banco.
— Já estou falando com a polícia.
Renato tomou o telefone da minha mão e ativou o viva-voz.
— Bloqueiem todas as contas da Fundação Duarte — ordenou ele. — E preservem cada registro eletrônico.
Do outro lado, o diretor financeiro respirava depressa.
— Não consigo, doutor Renato. O acesso foi autorizado pelo administrador principal.
— Quem é o administrador?
Houve um silêncio curto.
— O próprio Gabriel Duarte.
Eu olhei para a tela.
— Eu nunca autorizei essa transferência.
— Há uma gravação biométrica — disse o diretor. — A assinatura digital foi validada com seu certificado.
Price sorriu pela primeira vez.
Foi um sorriso pequeno, quase tranquilo.
— Talvez o senhor esteja se esquecendo do que assinou.
Aquela frase me fez lembrar da infância. Meu pai sempre dizia que minha memória era fraca quando eu questionava alguma coisa. Depois, colocava um papel diante de mim e apontava para a linha onde eu deveria assinar.
Renato percebeu meu rosto.
— Gabriel, não toque em mais nada. Vamos preservar o telefone e pedir uma perícia.
— Eu quero saber para onde foi o dinheiro.
— E vai saber. Mas primeiro precisamos proteger Mary e Lauren.
Camila já havia chamado a equipe social. O hospital providenciou um quarto reservado para a menina, enquanto Evelyn se sentava ao lado da cama de Mary.
— Eu devia ter contado tudo antes — disse Evelyn.
Mary segurou a mão dela.
— Você foi a única pessoa que não me abandonou.
— Eu procurei ajuda. Ninguém quis enfrentar a empresa do velho Duarte.
— Eu também não consegui.
— Agora ele não está mais aqui.
Mary olhou para mim.
— Mas deixou o filho dele.
Eu não soube responder.
Na manhã seguinte, Renato conseguiu uma ordem para apreender os computadores da fundação. A polícia encontrou registros de pagamentos para Price, recibos de aluguel falsificados e mensagens enviadas durante anos a endereços que eu nunca havia usado.
Meu pai tinha criado uma parede entre mim e Mary.
Depois da morte dele, Price continuara cobrando para mantê-la de fora da minha vida.
A parte mais cruel era que eu tinha dinheiro suficiente para procurá-la, mas nunca procurei ninguém. Aceitei a mentira mais conveniente: Mary havia desistido de mim.
Às dez horas, Price foi levado para uma sala de interrogatório. Eu estava atrás do vidro, ao lado de Renato e de um investigador chamado Mauro.
Price sentou-se, ajeitou a manga e pediu um advogado.
— Você não precisa responder — avisou o defensor público.
Mauro colocou um aparelho sobre a mesa.
— Vamos reproduzir uma conversa gravada ontem, no hospital.
A voz de Price encheu a sala.
— Entregue a bolsa, menina. Seu pai não vai aparecer para salvá-la.
Lauren encolheu-se ao ouvir aquilo. Eu a abracei do lado de fora do vidro.
A gravação continuou.
— E se ele aparecer? — perguntara Evelyn.
— Ele vai pagar para que tudo desapareça, como sempre fez.
Price ouviu a própria voz. O sorriso sumiu.
— Isso foi tirado de contexto — murmurou.
Mauro apertou outro botão.
— Temos mais de vinte mensagens suas ameaçando Mary, além de registros bancários.
— Eu só cumpri ordens.
— De quem?
Price olhou para o vidro.
Seus olhos encontraram os meus.
— Do seu pai.
— Meu pai está morto.
— A ordem continua sendo uma ordem quando há dinheiro suficiente para mantê-la viva.
Senti raiva, mas não a raiva quente que eu esperava. Senti cansaço.
Price havia passado anos obedecendo ao medo de um morto, e eu havia passado anos obedecendo à minha própria vaidade.
Renato tocou meu ombro.
— Ele será investigado por fraude, extorsão, abandono e falsificação. A empresa também responderá.
— E a Fundação?
— Vai ser desfeita. O dinheiro será usado para reparar as vítimas e garantir o tratamento de Mary.
— Faça isso.
— Você pode perder uma parte enorme do patrimônio.
Olhei para Lauren, que desenhava numa folha do hospital.
— Eu já perdi quinze anos. Dinheiro não é a parte mais difícil de recuperar.
Naquela tarde, voltei ao antigo apartamento onde Mary havia morado. A polícia tinha lacrado a porta, mas a ordem judicial permitia que retirássemos os pertences pessoais.
O corredor cheirava a mofo e tinta velha.
O quarto de Lauren estava quase vazio.
Havia apenas um colchão fino no chão, um copo de plástico e uma fotografia presa à parede com fita transparente. Na imagem, Mary segurava Lauren ainda bebê diante de uma janela coberta de neve.
Sobre o colchão estava a pequena bolsa de lona.
O chaveiro de lua pendia do zíper, imóvel.
Toquei nele e senti a ponta irregular do metal riscar meu dedo.
— Ela não queria deixar a bolsa para trás — disse Evelyn atrás de mim. — Dizia que ali estava tudo o que Lauren tinha.
— Agora ela vai ter mais.
— Não prometa o mundo, Gabriel.
— Não vou. Vou prometer presença.
Semanas depois, Mary recebeu alta. Os médicos disseram que a lesão exigiria fisioterapia, repouso e acompanhamento, mas ela poderia voltar para casa.
A casa não era mais o apartamento antigo.
Aluguei um sobrado pequeno numa rua arborizada de Evanston, perto de uma escola e de uma estação de trem. Não comprei uma mansão. Não queria que Lauren sentisse que tinha entrado num hotel onde qualquer pessoa podia pedir sua saída.
Na primeira noite, ela escolheu o quarto com a janela voltada para o jardim.
— Posso deixar a bolsa aqui?
— Onde você quiser.
— Até quando?
A pergunta me atravessou.
— Até você não precisar mais carregá-la.
Ela colocou a bolsa numa prateleira baixa. O chaveiro de lua bateu na madeira com um som delicado.
Eu comecei a trabalhar menos. Mantive apenas os projetos que não dependiam de mentiras e vendi a cobertura onde morava. Toda manhã, fazia ovos queimados para Lauren, que fingia gostar deles por educação.
Mary ria quando eu tentava cozinhar.
— Você ainda não sabe fazer café — dizia.
— Aprendi a negociar empresas inteiras.
— Mas não aprendeu a não destruir o café.
— Estou começando pela parte mais difícil.
Ela não me perdoou de imediato.
Eu também não pedi isso.
Pedi apenas que me deixasse ficar.
Em abril, Lauren trouxe um desenho da escola. Havia três figuras de mãos dadas: uma mulher de cabelo comprido, uma menina com vestido rosa e um homem muito alto, com braços exagerados.
— Sou eu? — perguntei.
— É você tentando alcançar o céu.
— Por quê?
— Porque você disse que queria consertar tudo.
— Eu disse isso?
— Disse.
Ela entregou o desenho para mim.
— Mamãe falou que ninguém conserta o passado.
Mary, sentada perto da janela, completou:
— Mas algumas pessoas podem parar de piorar o presente.
A investigação terminou no início do verão. Price foi condenado por fraude e extorsão. A antiga administradora perdeu a licença, e os recursos da fundação foram destinados ao tratamento de famílias ameaçadas por despejo.
Meu pai não podia ser julgado.
Mas seu nome foi retirado de todos os prédios, bolsas e placas que ainda carregavam sua assinatura.
Eu não comemorei.
Apenas assinei os documentos e voltei para casa antes do jantar.
Certa noite, quase um ano depois, uma carta chegou sem remetente. Reconheci a caligrafia de Price no envelope antes mesmo de abri-lo.
Ele dizia que havia sido manipulado, que meu pai era o verdadeiro culpado e que eu poderia ajudá-lo a reduzir a pena. Prometia revelar outros segredos se eu pagasse seus advogados.
Fiquei olhando para a folha por muito tempo.
Depois, a coloquei na trituradora.
Renato ligou naquela mesma noite.
— Você não vai responder?
— Já respondi.
— O que escreveu?
— Nada.
— Isso é tudo?
— Pela primeira vez, sim.
Mais tarde, encontrei Lauren no jardim. A neve começava a cair, embora ainda fosse cedo para o inverno. Ela prendia o desenho num barbante entre duas árvores.
— O que está fazendo?
— É para a mamãe ver da janela.
— Ela vai gostar.
— Pai?
Foi a primeira vez que ela me chamou assim sem hesitar.
— Oi.
— Você ainda acredita em Deus?
Olhei para a casa. A luz da cozinha estava acesa. Mary preparava café, provavelmente forte demais.
— Não sei.
Lauren segurou o pequeno chaveiro de lua.
— Talvez ele tenha ficado aqui mesmo quando você esqueceu.
A lua de metal balançou entre os dedos dela, capturando a luz branca do jardim.
Eu me ajoelhei diante da minha filha e fechei a mão sobre a dela.
Desta vez, não prometi resolver tudo.
Prometi ficar.
E fiquei.
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