PARTE 4
A ligação caiu, e por alguns segundos só ouvi o zumbido das lâmpadas no salão de música.
Arturo continuava diante de mim, com a ordem de preservação dobrada entre os dedos.
—O que ele encontrou? —perguntou Verónica.
Eu não respondi.
Liguei de volta para Álvaro. Caixa postal. Tentei outra vez. Nada.
Ignacio pegou o próprio telefone.
—Vou mandar uma equipe até a casa dele.
—E se já for tarde demais?
—Então vamos descobrir depressa.
Arturo avançou até a porta.
—Ninguém vai a lugar nenhum antes de meu advogado chegar.
—Seu advogado acabou de desligar quando ouviu falar da ordem —disse Ignacio.
Arturo piscou.
—Ele não faria isso.
—Fez. Disse que não representaria alguém que continuasse tentando vender imóveis depois de receber uma ordem oficial.
A mão de Arturo apertou o papel até amassá-lo. Pela primeira vez, não parecia um herdeiro poderoso. Parecia um homem que acabara de perceber que as paredes ao redor eram feitas de vidro.
Meu telefone tocou novamente.
Era o delegado responsável pela equipe.
—Encontramos o senhor Mena —disse ele. —Está assustado, mas vivo. Alguém entrou na casa dele e revirou os arquivos. Ele conseguiu esconder a fita dentro de uma caixa de ferramentas.
—A gravação está intacta?
—Ainda não sabemos. Venha para a delegacia.
Arturo ouviu cada palavra. Quando desliguei, ele tentou recuperar a compostura.
—Mateo, você não entende como funciona uma empresa desse tamanho. Se isso vier a público, milhares de pessoas perderão o emprego.
—Você deveria ter pensado nisso antes de falsificar os contratos.
—Eu fiz o que era necessário para manter o grupo vivo.
—Não. Você fez o que era necessário para mantê-lo seu.
Verónica colocou a mão no braço dele.
—Arturo, pare.
Ele se soltou.
—Você assinou comigo.
Ela ficou branca.
A segunda gravação foi ouvida às nove e quarenta e três da noite, numa sala fria da delegacia. Álvaro estava sentado ao meu lado, com um curativo na testa. Ignacio ficou de pé atrás de nós.
A voz de Esteban surgiu no aparelho.
—Se esta gravação for necessária, significa que Arturo não agiu sozinho. A primeira ordem para retirar dinheiro da empresa partiu de Verónica. Ela descobriu que eu pretendia afastá-los e convenceu o irmão de que precisava proteger a família.
Verónica levou as duas mãos à boca.
Arturo encarou-a.
—Você disse que papai nunca descobriria.
—Eu não sabia que ele estava gravando.
A fita continuou.
—Arturo executou os desvios. Verónica preparou as assinaturas e usou a doença de Esteban para pressionar funcionários. Eles acreditaram que eu estava perdido. Eu não estava. Esperei apenas que a própria ganância os prendesse dentro da armadilha.
Arturo começou a respirar com dificuldade.
—Desligue isso —disse ele.
Ninguém se moveu.
—Desligue!
Ignacio cruzou os braços.
—Você queria saber o que seu pai pensava. Agora está ouvindo.
A gravação terminou. Um silêncio pesado caiu sobre a sala.
Então o investigador colocou outro aparelho sobre a mesa.
—Temos também as imagens da sala de reuniões —disse ele. —Foram recuperadas de um sistema que Arturo acreditava ter apagado.
A tela mostrou meu irmão diante de dois diretores, meses antes da morte de nosso pai.
—Quando ele morrer, Mateo não terá coragem de contestar —dizia Arturo. —Deixem o garoto com o piano. Ele sempre foi fácil de manter ocupado.
Minha própria voz não aparecia. Eu não precisava dela.
Arturo ouviu a frase inteira. Ouviu o riso que dera depois. Ouviu-se chamando-me de inútil.
O rosto dele mudou lentamente.
—Eu estava tentando proteger a família —murmurou.
—Não —respondi. —Você estava falando de mim como se eu não fosse uma pessoa.
Naquela noite, os investigadores apreenderam computadores, contratos e cofres. As contas foram bloqueadas. Verónica passou horas tentando ligar para Madri, mas ninguém atendeu. Arturo telefonou para três bancos e recebeu a mesma resposta: aguardasse a decisão das autoridades.
Às duas da manhã, ele me encontrou no corredor.
—Você pode impedir isso —disse.
—Não.
—Somos irmãos.
—Isso nunca impediu você de fazer o que fez.
—O grupo é nosso pai.
—Não. O grupo era o trabalho dele. Você transformou tudo numa arma.
Ele se aproximou, desesperado.
—Diga ao investigador que foi um mal-entendido.
—Você ouviu sua própria voz.
—Eu estava sob pressão.
—Agora você pode descobrir como é viver com as próprias escolhas.
Meses depois, o processo revelou algo ainda maior. A Fundação Aurora estava legalmente constituída, os imóveis protegidos e os funcionários receberam garantias de continuidade. Arturo e Verónica foram responsabilizados pelos desvios e pelas falsificações. Não perdi tempo acompanhando cada audiência.
Eu não queria vê-los destruídos.
Queria apenas parar de ser arrastado para dentro do incêndio que eles mesmos acenderam.
A fazenda foi entregue à Fundação. O salão de música ficou vazio. Um dia, voltei sozinho para buscar algumas coisas.
No chão, perto da janela, encontrei uma fotografia da família. Minha mãe sorria com uma xícara de chocolate nas mãos. Meu pai estava ao piano. Arturo e Verónica apareciam atrás dele, ainda crianças.
Peguei a fotografia e deixei todos os outros objetos onde estavam.
No canto da sala, havia apenas a marca clara deixada pelo piano depois que o caminhão o levara. Parecia uma cicatriz na madeira.
O metrônomo também estava ali. Eu o tinha esquecido sobre uma prateleira.
Segurei-o com cuidado. O pêndulo continuava preso no número setenta e dois.
Levei-o comigo.
Oito meses depois, eu morava em Campinas e administrava uma pequena oficina de restauração de instrumentos. A Fundação havia me oferecido um cargo importante, mas recusei. Preferi trabalhar com as mãos, consertando aquilo que ainda podia voltar a cantar.
Meu apartamento era menor do que a sala antiga, mas tinha luz pela manhã. O piano restaurado ocupava a parede principal. As teclas novas não escondiam suas marcas; eu mantivera uma pequena rachadura na madeira, como lembrança do que ele fora.
Aos sábados, minha sobrinha Clara vinha me visitar. Verónica estava respondendo ao processo em liberdade, e Clara não tinha culpa das escolhas da mãe.
Certa manhã, ela se sentou diante do piano.
—Tio Mateo, esta música era do vovô?
—Era.
—Ele era feliz quando tocava?
Olhei para as mãos pequenas dela sobre as teclas.
—Às vezes. E acho que ficou feliz por ter conseguido deixar alguma coisa certa antes de partir.
Clara tocou três notas desajeitadas e riu.
—Agora está errado.
—Toda música começa assim.
Naquele inverno, caiu a primeira geada da cidade. Eu abri a janela, preparei café e ouvi o som do piano atravessar a sala. Clara desenhara uma casa amarela num papel e colocara o desenho sobre a tampa do instrumento.
No centro, havia quatro pessoas de mãos dadas.
Não perguntei por que ela desenhara quatro. Apenas coloquei o papel sob o metrônomo.
Ele ainda marcava setenta e dois.
Uma tarde, quase um ano depois, recebi uma mensagem de Arturo.
“Mateo, estou disposto a devolver tudo o que puder. Podemos conversar como irmãos. Nosso pai não gostaria de nos ver assim.”
Li a mensagem duas vezes.
Durante anos, eu teria corrido para responder. Teria tentado explicar, perdoar, reconstruir sozinho aquilo que os outros quebraram.
Dessa vez, escrevi apenas:
“Espero que você encontre paz, mas não voltarei para essa família como era antes.”
Apaguei o número.
Depois coloquei o telefone sobre a mesa e voltei ao piano.
A tecla que eu havia quebrado naquela noite fora restaurada, mas eu a mantivera um pouco mais baixa do que as outras. Quando a pressionei, o som saiu suave, imperfeito e inteiro.
Clara apareceu na porta com o desenho nas mãos.
—Tio, posso tentar de novo?
—Pode.
Ela se sentou. Eu ajustei o banco e coloquei o metrônomo diante dela.
O pêndulo oscilou pela primeira vez em décadas.
Setenta e dois movimentos por minuto.
A música começou devagar, atravessando a sala, a chuva e tudo o que eu havia perdido.
Eu não tinha recebido as ações, a fazenda ou as contas internacionais. Recebera algo mais difícil: a chance de não continuar vivendo para provar meu valor a quem nunca quis enxergá-lo.
Meu pai escondera a verdade dentro de um piano quebrado. Mas a verdade não me devolveu a família.
Devolveu-me a mim mesmo.
O metrônomo continuou marcando o tempo.
E, pela primeira vez, eu não tentei pará-lo.
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