Rita ligou às oito e dezessete da manhã e anunciou que ocuparia minha casa de praia como quem confirmava uma reserva já paga.
— Vamos todos passar as férias com vocês — disse ela, alegre. — Preparem tudo para o dia quinze!
Eu estava na varanda da nossa casa em Suko, com uma xícara de café entre as mãos, enquanto Pasha temperava a carne para o churrasco da noite. O cheiro de alho, páprica e carvão ainda apagado pairava no ar. Quando ele viu o nome de Rita na tela, colocou a ligação no viva-voz.
Meu estômago apertou.
Rita nunca ligava apenas para dar bom-dia. Ela aparecia quando precisava de dinheiro, de uma assinatura ou de uma solução para algum problema que ela mesma havia criado.
— Para onde vocês vão? — perguntou Pasha, já desconfiado.
— Para a casa de vocês, claro! Vamos para o litoral. Este ano estamos economizando no hotel. Para que pagar a estranhos se o pai dos meus filhos tem uma casa enorme na praia?
Pasha olhou para mim.
Eu não disse nada.
Eu gostava de Denis e Masha, os filhos que ele tivera no primeiro casamento. Denis tinha treze anos, Masha dez, e os dois sempre eram recebidos com alegria. A casa tinha sido pensada também para eles: beliches no quarto do andar superior, toalhas coloridas, uma caixa de lápis na escrivaninha.
Mas Rita continuou:
— Eu, Igor, o pequeno Vovochka, a mãe do Igor, Svetlana Jurievna, Denis, Masha e, claro, nosso cachorro Mikky. Vamos todos!
Pousei a xícara devagar.
Oito pessoas. Um bebê. Um cachorro. Uma sogra. Um marido novo. E duas crianças que nem sequer haviam sido consultadas.
Tudo isso dentro da minha casa.
— Rita — Pasha começou, escolhendo cada palavra —, Denis e Masha podem vir. Você sabe disso. Mas não temos espaço para uma família inteira.
— Não comece, Pasha! — A voz dela mudou imediatamente. — Eu já vi a casa. São dois andares e três quartos de hóspedes. Todo mundo cabe.
— Não é uma pousada — falei.
Do outro lado, houve um silêncio curto.
— Helena, ninguém pediu sua opinião sobre os meus filhos.
Senti o calor subir pelo meu pescoço.
— Meus filhos também não são bagagem para você usar como desculpa.
Pasha fechou os olhos. Conhecia aquele tom. Rita também.
— Estamos falando de quinze dias — ela respondeu. — Você não vai negar o mar às crianças, vai?
A frase atingiu exatamente o ponto que ela queria. Pasha sempre entrava em pânico quando alguém insinuava que ele era um pai ruim.
Olhei para a casa atrás de nós. As paredes claras, o piso que eu mesma escolhera, as janelas que passamos dois anos restaurando. O terreno fora comprado com o dinheiro da venda do apartamento que herdei da minha avó, em Ecaterimburgo, somado às minhas economias.
Pasha colocou a fundação, instalou os fios e assentou os azulejos. Mas a escritura estava em meu nome.
A casa não havia caído do céu.
Era o lugar onde eu sobrevivera a dois anos de poeira, dívidas e noites dormindo em um colchão no chão.
— Rita, não venha — eu disse.
— Você ouviu isso? — ela perguntou a Pasha, como se eu não estivesse ali. — Sua esposa está proibindo seus próprios filhos de entrar na casa do pai.
— Não foi isso que ela disse — Pasha murmurou.
— Então prove. Diga que podemos ficar.
Ele ficou imóvel, segurando a faca sobre a tábua de madeira. Uma gota de marinada escorreu pelo cabo e caiu em seu pulso.
— Eu preciso conversar com Helena — respondeu.
— Não precisa conversar. Precisa ser homem.
Rita desligou.
Durante alguns segundos, só ouvimos o zumbido do refrigerador na cozinha.
— Você vai deixá-los vir? — perguntei.
Pasha passou a mão pelo rosto.
— Denis e Masha não têm culpa.
— Eu nunca disse que tinham.
— Rita vai fazer um escândalo.
— Ela já fez.
Ele se levantou e entrou em casa. Eu o segui até o corredor, onde havia uma pequena câmera de segurança apontada para a porta principal. Eu a instalara depois que sumiram ferramentas durante a reforma. Pasha sempre brincava que aquele aparelho parecia um olho redondo, incapaz de piscar.
Naquele momento, o olho vermelho estava aceso.
O telefone dele vibrou.
Pasha leu a mensagem e ficou pálido.
— O que foi? — perguntei.
Ele não respondeu.
Arranquei o telefone de sua mão. Na tela, Rita havia escrito: “Se Helena dificultar, use o que combinamos. Ela não pode descobrir antes do dia quinze.”
Pasha tentou tomar o aparelho de volta.
— Helena, escute…
— O que vocês combinaram?
Ele abriu a boca, mas nenhum som saiu.
Então ouvi um carro parar diante do portão. Pelo vidro da janela, vi Rita descendo com uma pasta amarela debaixo do braço, embora o dia quinze ainda estivesse a quase duas semanas de distância.
Ela caminhou até a porta e bateu três vezes.
Pasha deu um passo para trás.
Rita sorriu do lado de fora.
Eu girei a maçaneta, enquanto minha mão procurava a pasta que eu havia escondido no armário do corredor, atrás das toalhas de praia…
PARTE 2
…e meus dedos tocaram a borda dura da pasta exatamente quando Rita entrou sem esperar convite.
Ela trouxe o cheiro de perfume doce e areia molhada. Atrás dela estavam Igor, o marido novo, segurando um bebê sonolento, e Svetlana Jurievna, com um chapéu enorme que quase encostava no batente. Mikky entrou correndo, derrapou no piso e deixou marcas de lama perto do tapete que eu comprara em uma feira de Batumi.
— Que recepção calorosa — Rita disse, olhando ao redor. — Ainda bem que viemos antes. Assim dá tempo de organizar os quartos.
— Você não foi convidada — respondi.
Igor baixou os olhos.
— Rita, talvez seja melhor conversarmos do lado de fora — Pasha falou.
— Por quê? A casa é do meu ex-marido.
— Não é — eu disse.
Svetlana Jurievna soltou uma risada seca.
— Querida, não comece com documentos. Família não se trata assim.
— Família também não invade a casa dos outros com malas.
Foi então que percebi duas malas grandes junto ao portão. E uma gaiola de transporte para o cachorro.
A visita não começaria no dia quinze.
Para Rita, já tinha começado.
— Denis e Masha estão na escola — Pasha falou, nervoso. — Eles não sabem que você os trouxe para cá?
— Eu não trouxe as crianças. Ainda. Mas vou buscá-las quando saírem. Elas precisam descansar antes da viagem.
— Não haverá viagem — falei.
Rita se aproximou tanto que senti seu perfume invadir minha garganta.
— Você tem noção do que está fazendo? Se impedir meus filhos de passar as férias com o pai, vou procurar um advogado.
— Procure.
Ela piscou, surpresa por eu não recuar.
Pasha me puxou pelo braço.
— Helena, não torne isso pior.
Eu me soltei.
— Pior para quem? Para mim, que paguei esta casa? Para as crianças, que estão sendo usadas? Ou para você, que prometeu alguma coisa sem me contar?
O rosto dele endureceu.
— Eu não prometi a casa.
— Então o que combinou com ela?
Rita cruzou os braços.
— Pasha só queria proteger os filhos. Você é que está transformando tudo em dinheiro.
— Meu dinheiro pagou o telhado que você quer usar.
A campainha tocou. Era Vera, a vizinha da casa ao lado, trazendo um pote de geleia de damasco. Ela parou ao ver as malas e o bebê.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou.
— Nada — Rita respondeu. — Somos a família do proprietário.
Vera olhou para mim. Depois olhou para Pasha.
— Proprietário?
— A escritura está no nome de Helena — Pasha disse, quase inaudível.
O sorriso de Rita desapareceu por um instante, mas voltou mais afiado.
— Escritura pode mudar, Vera. Há um acordo entre os dois.
Eu senti um frio no peito.
— Que acordo?
Pasha permaneceu em silêncio.
Foi quando tirei a pasta do armário. Dentro havia cópias da escritura, recibos da reforma e uma folha que eu encontrara naquela manhã, presa à caixa de correio. O documento trazia o nome de Pasha e uma assinatura parecida com a minha.
— Você vai me explicar isto — falei.
Ele ficou branco.
Rita avançou um passo.
— Onde encontrou isso?
— Na minha caixa de correio.
— Não mexa em coisas que não entende — ela sibilou.
— Então explique você.
Igor segurou o bebê com mais força.
— Rita, você disse que estava tudo resolvido.
— Está resolvido — ela retrucou, sem tirar os olhos de mim. — Pasha assinou uma autorização para usarmos a casa. A reforma criou dívidas e ela não pode fingir que não sabe.
Virei-me para o meu marido.
— Que dívidas?
Ele respirou fundo.
— Eu ia contar.
— Quando? Depois de vender a casa?
A frase caiu entre nós como um prato quebrado.
Pasha não negou.
Rita sorriu novamente.
— Finalmente você entende. A casa precisa ser vendida. O dinheiro resolve tudo. Igor tem um negócio para começar, eu tenho as crianças, e você pode voltar para a cidade.
Minha visão ficou estreita.
— Você planejou me expulsar da minha própria casa?
— Não seja dramática. Você sempre pode comprar outro apartamento.
Pasha tentou falar:
— Helena, eu só pedi um empréstimo para cobrir uma dívida antiga. Rita conhecia alguém que poderia ajudar. A casa seria garantia temporária.
— E a assinatura?
Ele olhou para a folha.
— Era uma procuração.
— Eu nunca assinei isso.
— Eu sei.
A resposta foi tão baixa que quase não ouvi.
Pasha sabia.
A câmera sobre a porta continuava com a luz vermelha acesa. Eu olhei para ela e lembrei que o aparelho gravava som desde a primeira reforma. Tudo o que fora dito na entrada estava registrado.
Rita percebeu meu olhar.
— O que você está pensando?
— Estou pensando que ninguém vai sair daqui com minhas chaves.
Ela pegou o telefone.
— Então ligarei para quem precisa ouvir que você está impedindo as crianças de ficar com o pai.
— Ligue.
Ela discou, mas antes que alguém atendesse, o telefone de Pasha tocou. Ele observou a tela e deu um passo para trás.
— Quem é? — perguntei.
Pasha engoliu em seco.
— O homem que recebeu a procuração.
Rita arrancou o telefone da mão dele.
— Não atenda.
Mas eu já havia colocado o aparelho no viva-voz.
Uma voz masculina disse:
— Pasha, a compradora está esperando a confirmação. Se sua esposa continuar recusando, teremos de usar a gravação da dívida e pedir uma ordem de imissão…
Rita desligou.
O silêncio foi absoluto.
— Compradora? — perguntei.
Pasha fechou os olhos.
— Helena, eu posso explicar.
— Não. Agora você vai escutar.
Conectei a câmera ao televisor da sala. A gravação daquela manhã apareceu na tela. Rita, diante da porta, dizia que eu não descobriria nada antes do dia quinze.
Mas a câmera tinha registrado uma conversa anterior, feita dois dias antes, quando Pasha acreditava estar sozinho na varanda.
A imagem começou a carregar.
Rita colocou a mão sobre o braço de Pasha na gravação e perguntou, sorrindo: “Quando Helena assinar, você me dá metade ou vai continuar fingindo que é o marido perfeito?”
Pasha, sentado diante da tela, levou as mãos ao rosto.
Rita avançou para desligar o aparelho.
Eu me coloquei entre ela e o televisor.
— Não toque em nada.
Ela parou.
A gravação continuou, e então Pasha disse uma frase que fez até Igor recuar:
— Ela não vai perceber. Depois que a casa for vendida, eu resolvo o resto…
A imagem congelou no rosto dele.
E, naquele instante, Pasha entendeu que não poderia mais dizer que tudo fora apenas uma tentativa de proteger os filhos…
PARTE 3
…porque a gravação não terminava ali.
Na sala, ninguém se mexeu. O bebê de Igor soltou um gemido baixo, e Mikky começou a arranhar a porta da cozinha. O som das unhas no piso parecia um relógio contando os segundos.
Na tela, Rita continuava falando.
— Você prometeu que ela sairia depois da venda — dizia ela. — Não me interessa se ainda ama essa mulher. Igor precisa do dinheiro, e as crianças não podem continuar dependendo de você.
— Eu sei — respondeu Pasha na gravação.
— E se ela resistir?
Pasha olhou para os lados antes de sussurrar:
— Vou dizer que ela abandonou a família. Com os documentos da dívida, ninguém vai ficar do lado dela.
Svetlana Jurievna levou a mão à boca.
Igor se virou para Rita.
— Você sabia disso?
— Cala a boca — ela respondeu.
— Você disse que a casa era nossa.
— Eu disse que tudo estava resolvido.
Pasha levantou-se de repente.
— Desligue isso, Helena.
— Por quê? A voz é sua.
— Eu estava desesperado.
— Mas estava falando a verdade.
Ele ficou diante de mim, com os olhos vermelhos.
— A dívida era de uma empresa que eu abri antes de conhecê-la. Eu perdi dinheiro. Depois usei parte das economias da casa para cobrir os credores. Quando você descobriu, eu já tinha medo de contar.
— Então falsificou minha assinatura?
Pasha olhou para a folha sobre a mesa.
— Eu não falsifiquei. Rita conseguiu alguém que fez isso.
Rita deu um passo para trás.
— Não coloque tudo em mim.
— Você me disse que o tabelião não faria perguntas — Pasha gritou.
O rosto de Rita perdeu a cor.
Eu peguei meu telefone e liguei para o escritório de Irina, a advogada que cuidara da escritura da casa. Ela atendeu no segundo toque.
— Helena? Aconteceu alguma coisa?
— Irina, estou com uma procuração usando meu nome. Pasha admite que eu não assinei.
— Não entregue o documento a ninguém. Fotografe cada página e chame a polícia. Também vou verificar o registro eletrônico da venda.
Rita avançou para a mesa.
— Você não pode destruir uma família por causa de uma casa!
— Eu não destruí nada — respondi. — Apenas parei de esconder o que vocês fizeram.
Irina pediu que eu olhasse a última página da procuração. Havia um carimbo do cartório, uma data e o nome do suposto tabelião.
Eu li em voz alta.
— “Autorização irrevogável para venda do imóvel.”
Pasha fechou os olhos.
— Eu não sabia que era irrevogável.
— Você assinou sem ler?
Ele não respondeu.
Irina pediu uma fotografia do carimbo. Enviei. Menos de um minuto depois, o telefone tocou novamente.
— Helena — disse ela —, o carimbo foi usado em outro documento. O tabelião morreu há três anos.
Svetlana Jurievna deixou cair a bolsa no chão.
Igor segurou o bebê e encarou Rita.
— Você me disse que era uma negociação legal.
— Eu não sabia do carimbo.
— Mas sabia que ela não tinha assinado.
Rita ficou muda.
Naquele momento, ouviu-se uma batida no portão. Vera apareceu acompanhada de dois policiais. Irina havia feito a ligação por mim, pois temia que Rita tentasse levar a pasta ou o telefone.
Um dos policiais pediu os documentos. Entreguei cópias, mantendo os originais junto ao peito.
— Ninguém sai até identificarmos quem preparou esta procuração — ele disse.
Rita começou a chorar.
— Eu só queria uma casa para meus filhos.
— Não — falei. — Você queria uma casa que não era sua.
Pasha sentou-se no sofá, arrasado. A gravação ainda estava pausada na tela, congelada no momento em que ele dizia que eu não perceberia.
O policial pediu que ele repetisse a confissão. Pasha olhou para mim.
— Eu sabia que Helena não havia assinado. Eu aceitei usar a casa como garantia e planejei vender o imóvel sem a autorização dela.
Sua voz tremia.
Ouvir aquilo diretamente foi pior do que a gravação. Na tela, ele parecia um estranho. Sentado diante de mim, era o homem que dormira ao meu lado durante quinze anos.
Rita tentou interromper:
— Pasha, não diga mais nada.
— Eu já disse — ele respondeu.
Irina ligou mais uma vez.
— Helena, descobri algo ainda mais grave. A compradora enviou hoje uma equipe para trocar as fechaduras. E o pedido de venda foi protocolado com uma declaração afirmando que você havia abandonado voluntariamente a casa.
Meu coração parou por um segundo.
— Quem assinou essa declaração?
Irina fez uma pausa.
— Seu marido.
Pasha ergueu a cabeça.
— Não. Eu não assinei isso.
— A assinatura está lá — respondeu Irina. — Mas há outra coisa. O documento afirma que você está internada em uma clínica e incapaz de administrar seus bens.
Rita fechou os olhos.
No mesmo instante, o telefone de um dos policiais tocou. Ele ouviu em silêncio e depois olhou para mim.
— Senhora Helena, acabamos de receber uma informação da clínica mencionada. Existe um cadastro em seu nome, feito esta manhã.
— Eu nunca estive em clínica alguma.
— Eu sei — disse o policial. — A informação é falsa. Mas quem a registrou deixou o próprio número de telefone.
Ele me entregou o aparelho.
Na tela havia um número que eu conhecia.
Era o número do irmão de Rita.
Antes que eu pudesse falar, chegou uma mensagem de Irina:
“Não vá para a cidade. A pessoa que está tentando assumir a casa já está a caminho. E ela não é a compradora que Pasha mencionou…”
Quando ele ouviu a própria voz, tudo mudou…
Eu pensei que a verdade encerraria aquela história. Mas ela apenas abriu a porta para uma vida que eu ainda não conhecia.
“Ela não vai perceber.”
E, pela primeira vez, não conseguiu fugir do que havia feito.
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