Voltei de uma viagem de trabalho um dia antes do previsto e encontrei duas xícaras na cozinha; quando mencionei a câmera, meu marido perdeu a cor.
Era sábado, pouco depois das seis da tarde, quando abri a porta do nosso apartamento. Eu não havia avisado ninguém. Queria surpreender Igor, meu marido havia vinte anos. Mas a surpresa foi minha: a casa cheirava a poeira e a um perfume doce e barato, daqueles que grudam na garganta. No quarto, a cama estava arrumada com uma perfeição estranha. Igor nunca esticava o lençol daquele jeito. Uma das pontas do cobertor tinha sido puxada com tanta pressa que a linha azul de um botão estava solta.
Na cozinha, encontrei duas xícaras sobre a mesa. Uma era minha, pintada à mão, com pequenas folhas douradas na borda. A outra estava limpa. Na minha havia uma marca de batom vermelho, da cor de morango maduro. Sentei-me, abri a garrafa de uísque e servi um copo. O gelo bateu no vidro como um relógio contando os segundos.
Às sete e vinte, a fechadura girou. Igor entrou usando uma camisa nova, ainda com a etiqueta presa na costura. Ao me ver, parou tão bruscamente que quase deixou cair as chaves.
— Ana? Você não chegaria amanhã?
— Chegaria. Mas quis fazer uma surpresa.
Ele tirou os sapatos, errou o tapete e empurrou um deles para debaixo do aparador. A mão direita tremia. O cheiro do perfume caro que eu havia lhe dado no aniversário misturava-se ao suor de outra pessoa.
— Quem tomou café comigo? — perguntei, apontando para a xícara.
— O Carlos. Ele passou rapidamente.
— Carlos tem diabetes, Igor. Não toma café. E não usa batom vermelho.
O silêncio que veio depois parecia ocupar toda a cozinha. Eu sentia meu coração bater no pescoço, mas minha voz permaneceu calma. Talvez fosse o cansaço. Talvez fosse o momento em que uma mulher deixa de esperar uma explicação e começa a preparar uma saída.
— Você está exagerando — ele disse.
— Estou? Então vamos olhar a gravação da câmera da entrada.
Foi como se eu tivesse acendido um fósforo. O rosto bronzeado dele ficou acinzentado. Igor segurou a borda da mesa, apertando tanto os dedos que as unhas embranqueceram.
— Não precisa envolver o Roberto — murmurou.
Eu ainda nem havia mencionado o nome do meu sócio e amigo de infância. Bastou olhar para o telefone, onde o contato dele estava aberto, para Igor levantar a voz.
— Não ligue para ele!
— Então me diga quem é ela.
Ele desviou os olhos. Eu me lembrei do começo de tudo, quando ele perdeu o emprego, bebeu durante semanas e meu pai vendeu o sítio para pagar nossas dívidas. Fui eu quem conseguiu o primeiro empréstimo, escolheu o primeiro equipamento e criou a empresa de construção. Igor apenas assinava documentos e sorria nas fotografias.
— É a Lívia — ele confessou por fim.
Peguei minha xícara, observei o batom e a deixei cair no chão. A porcelana se partiu em dezenas de pedaços brancos.
— Amanhã, às sete da noite, no restaurante Imperial — falei. — Você e Lívia estarão lá.
— Ana, por favor…
— E leve seu advogado, se quiser. Eu também levarei o meu.
Fui até o escritório, abri o cofre e retirei a fina pasta preta do nosso contrato de casamento. Quando a coloquei sobre a mesa, Igor recuou como se o papel pudesse mordê-lo. Eu passei o dedo pela capa, sentindo uma pequena marca de dobra no canto, e disse:
— Você sempre gostou de assinar sem ler. Desta vez, talvez seja obrigado a ler cada linha…
PARTE 2
Minha mão ainda estava sobre a pasta quando Igor tentou puxá-la para si. Eu a retirei primeiro. A unha dele raspou o couro preto, produzindo um som seco que me atravessou.
— Você não pode fazer isso comigo — ele disse, naquela mesma cozinha, às oito da noite. — Nós somos casados.
— Justamente por isso o contrato existe.
— Foi uma traição, não um crime.
— Ainda não decidi como chamarei o resto.
Ele me encarou. Eu havia deixado sobre a mesa um pequeno cartão de memória retirado da câmera da entrada. Não precisava mostrar nada. O simples objeto, escuro e menor que uma moeda, fez a respiração dele falhar.
— Ana, podemos conversar como adultos.
— Conversamos amanhã. Com a mulher que você chama de amor e com as pessoas que sabem onde está o dinheiro da nossa empresa.
Na manhã seguinte, domingo, às dez horas, encontrei-me com Roberto no escritório. A sala cheirava a café fresco e papel novo. Ele abriu uma pasta cinza, presa por um elástico vermelho, e empurrou para mim três folhas de extratos bancários.
— Você tinha razão em desconfiar — disse ele. — Há pagamentos para uma fornecedora que não entrega nada há seis meses.
— Quanto?
— Quinze milhões de reais.
A caneta parou entre meus dedos. Senti um frio subir pelo braço, mas mantive os olhos nos números.
— E quem autorizou?
Roberto virou a última página. A assinatura era de Igor.
— Ele. Mas o dinheiro foi dividido entre duas empresas. Uma delas está registrada em nome da mãe dele.
— E a outra?
— Ainda estamos descobrindo. Também encontramos um segundo imóvel, uma casa de campo que ele nunca mencionou.
Eu me lembrei das viagens repentinas, das reuniões aos domingos e daquela camisa nova com a etiqueta presa. Cada detalhe se encaixou como uma peça de vidro no lugar errado.
— Quero uma auditoria completa — ordenei. — E nenhuma transferência sem minha autorização.
— Ana, se fizermos isso agora, ele perceberá.
— Então não faremos barulho. Deixe-o acreditar que ainda está no controle.
Às sete da noite, no restaurante Imperial, Lívia chegou usando um vestido vermelho apertado e brincos de pedras verdes. Ela caminhava com dificuldade nos saltos, mas levantou o queixo ao se sentar diante de mim. Igor parecia menor ao lado dela. Ficou amassando o guardanapo até rasgá-lo.
— Eu não vim ser humilhada — Lívia avisou.
— Ótimo. Vim apenas esclarecer algumas coisas.
— Igor disse que vocês estão praticamente separados.
— Igor diz muitas coisas.
Ele apertou os lábios.
— Ana, seja razoável.
— Estou sendo. Por exemplo, Lívia, você sabe quem construiu a empresa que ele chama de dele?
— Ele é o diretor-geral.
— É uma placa na porta. Eu fiz os projetos, negociei os empréstimos e coloquei o primeiro guindaste no canteiro de obras.
Lívia olhou para ele, esperando uma negação. Igor não negou.
— Você sabia que ele estava casado? — perguntei.
— Sabia. Ele disse que o divórcio estava acertado.
— E que tudo ficaria para ele?
— Disse que a empresa era dele.
Eu abri a pasta preta e deslizei o contrato pela mesa. A página marcada com uma fita azul ficou entre nós.
— Seu amante provavelmente não contou o que acontece quando a infidelidade é comprovada.
Lívia leu a cláusula. A cor abandonou seu rosto.
— Isso é verdadeiro?
Igor levantou-se de repente.
— Não assuste a garota com uma papelada antiga!
— Antiga, sim. Inválida, não.
Ele bateu a mão na mesa, fazendo os copos tilintarem.
— Você nunca me amou! Só queria controlar tudo!
— Não. Eu amei você. O controle começou quando percebi que, sem ele, você destruiria tudo.
Lívia fechou o contrato e encarou Igor.
— Você me prometeu uma vida.
— Eu vou resolver isso — ele respondeu, já sem convicção.
Na saída, escondida dentro do carro, ouvi Lívia exigir explicações. Depois ela revelou que sabia da casa registrada em nome da mãe dele e ameaçou contar tudo. Igor começou a implorar.
Voltei para casa antes deles. À meia-noite, ele caiu de joelhos diante do meu sofá.
— Ana, eu mudei. Podemos começar de novo.
Fechei o livro que fingia ler.
— Então comece me dizendo por que desapareceram quinze milhões da empresa.
O telefone dele tocou. Igor olhou a tela, atendeu e ficou imóvel. Do outro lado, alguém disse apenas quatro palavras. Quando desligou, ele sussurrou:
— O auditor já está no escritório…
PARTE 3
O auditor já estava no escritório porque eu havia preparado tudo três dias antes. Na segunda-feira, às oito da manhã, a sala de reuniões tinha as persianas fechadas e uma chuva fina batia no vidro. Roberto estava ao meu lado, com uma pasta azul. Dois advogados aguardavam em silêncio. Sobre a mesa havia um botão solto, encontrado no quarto, e o cartão de memória da câmera.
Igor entrou primeiro, pálido, seguido por Lívia. Ela usava os mesmos brincos de pedras verdes do restaurante, mas agora segurava a bolsa contra o peito como um escudo.
— Por que ela está aqui? — Igor perguntou.
— Porque você prometeu a ela uma vida que não podia pagar — respondi. — E porque hoje todos ouvirão a mesma verdade.
Lívia puxou uma cadeira.
— Você disse que eu receberia metade da empresa.
— Lívia, cale-se — Igor rosnou.
Roberto ligou o projetor. A primeira imagem mostrou Igor entrando no apartamento com Lívia. Depois vieram fotografias de uma viagem que ele negara: um hotel à beira-mar, passagens para duas pessoas e recibos de joias. Nos brincos dela havia o mesmo desenho dos documentos.
— Isso é montagem — Igor disse.
— Então explique as imagens originais — falou um advogado. — Foram extraídas do cartão apreendido pela perícia e autenticadas.
A sala pareceu encolher. Eu senti tristeza, não satisfação. Durante vinte anos, aquele homem havia dormido ao meu lado. Agora eu o via como um desconhecido usando a minha camisa.
Roberto mudou o documento na tela. Surgiram os pagamentos para a fornecedora fictícia, as transferências para a empresa ligada à mãe de Igor e os contratos com assinaturas digitais.
— Quinze milhões desviados — disse ele. — E há mais dois milhões em despesas pessoais.
— Eu estava administrando a empresa! — Igor gritou.
— Administrar não é criar empresas fantasmas — respondi.
Ele virou-se para mim, os olhos molhados.
— Você me deu o cargo. Você me colocou nessa posição.
— Dei-lhe uma oportunidade. Você a transformou em um esconderijo.
O advogado colocou sobre a mesa uma certidão de venda do imóvel de campo. A mãe de Igor havia assinado a transferência naquela manhã, depois de receber a auditoria e descobrir que o filho usara seu nome.
— Ela também enviou uma mensagem — Roberto acrescentou. — Disse que não pretende voltar a falar com você.
Igor sentou-se. O rosto dele ficou cinzento.
— O que você fez com tudo? — perguntou Lívia, quase chorando.
— Tudo o quê?
— O dinheiro, a casa, a empresa. Você dizia que era seu.
— Era da família — ele respondeu.
— Não era sua — corrigi. — Era minha, construída com o dinheiro do meu pai, o esforço da minha mãe e vinte anos do meu trabalho.
Entreguei aos advogados a pasta preta. A cláusula sobre infidelidade e a cláusula que obrigava a indenização por fraude eram claras. O contrato não lhe deixava margem para contestar os bens comuns após a prova da traição.
— Você ficará com o que estiver usando — falei. — O restante será protegido, auditado e recuperado. Quanto às fraudes, a polícia receberá os documentos hoje.
Lívia levantou-se furiosa.
— Eu não sabia de nada!
— Por isso há um envelope para você. Contém dinheiro suficiente para voltar à sua cidade e desaparecer da nossa vida. Não é prêmio. É o preço de nunca mais ouvir seu nome.
Ela pegou o envelope cinza, mas parou na porta.
— Ele nunca amou ninguém — disse, olhando para Igor. — Nem você.
Depois saiu.
Igor ficou sozinho comigo. Pela primeira vez, não havia plateia para impressionar.
— Ana, por favor.
— Vá embora antes que eu me lembre por que um dia fiquei.
Três meses depois, encontrei uma fotografia nossa numa caixa antiga. Éramos jovens, sorríamos diante de uma barraca azul. Guardei a foto no arquivo e escrevi: “Projeto família encerrado”. Naquela noite, Roberto ligou e me convidou para jantar.
— A conta será dividida — avisei.
— Eu esperava exatamente isso — ele respondeu, rindo.
Desliguei e fui até a janela. A chuva escorria pelo vidro, levando consigo as luzes da cidade. Pela primeira vez em vinte anos, o silêncio da casa não parecia vazio; parecia espaço para eu voltar a caber em mim mesma.













