O menino ferido apertou meu pulso e implorou que eu não chamasse a polícia, enquanto homens armados fechavam a rua atrás de nós.
Eram quase onze da noite quando encontrei o garoto no beco atrás do restaurante onde eu trabalhava, em uma região de Boston onde até os gatos pareciam conhecer o perigo. A chuva de outubro escorria pela minha testa, misturada ao suor, enquanto eu pressionava o pedaço rasgado do meu casaco contra o ferimento acima da sobrancelha dele.
O sangue não parava.
— Por favor — ele sussurrou. — Não chame eles.
— Quem são eles?
O garoto não respondeu. Seus olhos estavam enormes, presos ao escuro entre as lixeiras. Vestia um paletó preto rasgado, uma camisa branca manchada e sapatos que custavam mais do que tudo o que eu possuía. No peito, preso por uma corrente fina, havia um pequeno medalhão de prata em forma de corvo.
Meu celular pesava no bolso. Bastava apertar três números. Mas eu conhecia aquele olhar. Anos antes, depois que minha mãe morreu e o serviço social me separou dos poucos parentes que eu tinha, também pedi ajuda com aquela mesma expressão. A ajuda veio tarde, cheia de formulários e perguntas, e me deixou ainda mais sozinha.
— Meu apartamento fica a três quarteirões — falei. — Você consegue andar?
Ele tentou se levantar. As pernas dobraram imediatamente.
— Como você se chama?
— Theo.
— Theo, então você vai se apoiar em mim. E não desmaie.
— Meu pai vai me encontrar.
A frase deveria ter me tranquilizado. Não tranquilizou.
Passei meu casaco sobre os ombros dele, embora eu mesma tivesse apenas o uniforme fino do restaurante para me proteger do frio. O broche em forma de lua, com o vidro rachado, continuou preso à gola. Era a única coisa que minha mãe deixara para mim. Eu o tocava sempre que precisava fingir coragem.
Saímos do beco mancando. Duas ruas depois, ouvi um motor funcionando sem pressa. Um utilitário preto estava parado na esquina, com os faróis apagados. Dentro dele, alguém acompanhava nossos passos por uma pequena tela iluminada.
— Sophie — Theo murmurou, puxando minha manga. — Não vá pela avenida.
Parei.
— Por quê?
— Porque eles estão lá.
— Quem está lá?
Ele olhou para trás, e o rosto ficou ainda mais pálido.
No fim da rua, duas silhuetas haviam surgido sob os guarda-chuvas. Um homem segurava o telefone junto à boca. O outro mantinha uma das mãos dentro do casaco.
Meu coração bateu tão forte que senti dor no peito.
— Theo, você fez alguma coisa?
— Eu tentei fugir.
— De quem?
Antes que ele respondesse, uma porta de carro se abriu atrás de nós. Não foi a do utilitário. Era um sedã escuro estacionado junto ao meio-fio, tão silencioso que eu nem percebera sua presença.
Um homem alto saiu do banco traseiro. Usava luvas de couro e carregava um guarda-chuva fechado, apesar da chuva. Seu olhar passou por Theo, depois por mim, e parou no meu broche de lua.
Ele ficou imóvel.
Theo agarrou minha mão.
— Não deixe que ele me leve — disse.
O homem deu um passo em nossa direção.
— Senhorita, afaste-se do garoto — ordenou.
— Quem é você?
— Alguém que sabe exatamente o que acontecerá se continuar segurando-o.
Atrás dele, as duas silhuetas começaram a atravessar a rua. Eu senti Theo tremendo contra meu braço, e compreendi que não havia escolhido entre o perigo e a segurança. Havia escolhido entre dois perigos.
O homem de luvas tirou um telefone do bolso e disse, sem desviar os olhos de mim:
— O senhor finalmente vai querer falar com ela. Mas antes precisamos descobrir o que a moça encontrou no bolso do menino…
PARTE 2
A mão do homem avançou para o bolso interno do paletó de Theo, e eu me coloquei entre os dois antes mesmo de pensar.
— Não toque nele.
Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia. O broche de lua bateu contra a gola, produzindo um pequeno estalo metálico que pareceu alto demais naquela rua molhada.
O homem parou.
— Você não faz ideia do que está fazendo — disse ele.
— Sei que um menino está sangrando e que três adultos o perseguem. Para mim, isso já é suficiente.
Theo se agarrou às minhas costas. Eu sentia os dedos dele tremendo através do uniforme fino.
— O nome dele é Marcos — o homem continuou. — Trabalho para a família. Se o senhor Moretti souber que você o escondeu, não será gentil.
O sobrenome caiu entre nós como uma lâmina.
Theo fechou os olhos.
— Não diga o nome dele.
— Quem é Moretti? — perguntei.
Marcos lançou um olhar rápido para os homens que se aproximavam pela rua.
— O pai do garoto.
— Então chame o pai dele.
— Ele já está vindo.
Meu prédio ficava a menos de cem metros, um edifício antigo com elevador quebrado e escadas cheirando a mofo. Puxei Theo para trás e corri. Marcos gritou alguma coisa, mas não o obedeci. Subimos os degraus enquanto a chuva escorria do cabelo do menino para o meu pescoço.
No terceiro andar, Theo tropeçou.
— Meu quarto… minha casa… — ele murmurou.
— Você está na minha casa agora. Sente-se.
Meu apartamento tinha uma sala minúscula, uma cozinha com azulejos rachados e uma janela que não fechava direito. Coloquei Theo sobre o sofá, acendi a luminária e peguei o estojo de primeiros socorros. O cheiro de álcool se misturou ao de café velho e lã molhada.
— Isso vai doer — avisei.
— Já doeu mais.
— Crianças não deveriam saber dizer isso.
Ele desviou o rosto quando limpei o ferimento. Havia um corte profundo, mas não parecia haver fratura. No bolso do paletó, senti algo duro encostar nos meus dedos.
— O que é isso?
Theo segurou minha mão.
— Não pegue.
— Está machucado por causa disso?
— Não. Mas meu pai mataria para recuperar.
O interfone tocou.
Uma vez.
Duas.
Na terceira, parei de respirar.
— Sophie — disse uma voz masculina pelo aparelho. — Abra a porta. Sou Dante Moretti.
Theo empalideceu.
— Não abra.
— Se ele é seu pai, talvez possa ajudar.
— Ele não veio me ajudar. Veio descobrir se eu falei.
— Sobre o quê?
Theo olhou para o relógio de parede, como se esperasse que o tempo pudesse salvá-lo.
— Sobre o homem que morreu hoje.
O interfone tocou novamente.
Peguei uma faca na cozinha e voltei para perto dele. Não era uma arma de verdade, apenas uma lâmina curta para cortar pão, mas era o único objeto que consegui segurar sem deixar minhas mãos vazias.
— Theo, quem morreu?
— Minha mãe.
A resposta me atingiu com uma força absurda. O menino baixou a cabeça, e uma gota de sangue deslizou até a ponta do queixo.
— Ela não morreu em um acidente — ele continuou. — Eu ouvi meu pai discutindo com ela. Depois ouvi um tiro.
— E você fugiu?
— Peguei isto.
Ele finalmente retirou o objeto do bolso. Era um gravador minúsculo, coberto por uma película de plástico transparente. A luz vermelha ainda piscava.
A porta do prédio bateu no térreo.
Passos começaram a subir.
Theo apertou o gravador contra o peito.
— Se Dante descobrir que está comigo, ele vai matar você também.
Olhei para o broche rachado na minha gola, depois para a porta trancada. Por algum motivo, o medo não era mais a única coisa dentro de mim. Havia uma sensação estranha, quase uma lembrança, como se aquele sobrenome tivesse sido pronunciado muitas vezes na minha infância.
Os passos pararam diante do apartamento.
Dante Moretti bateu uma vez.
— Sophie, abra. Antes que os homens atrás de mim decidam fazê-lo por conta própria.
Theo sussurrou:
— Diga que eu não estou aqui.
A maçaneta começou a girar.
E, naquele instante, o gravador em sua mão emitiu um clique, como se alguém do outro lado estivesse prestes a falar…
PARTE 3
O clique foi seguido pela voz de uma mulher, baixa e ofegante, saindo do gravador.
— Dante, você prometeu que ninguém tocaria no meu filho.
Theo cobriu a boca para não gritar. Eu senti o sangue abandonar meu rosto.
Do outro lado da porta, Dante bateu novamente.
— Abra agora — exigiu. — Não transforme isto em uma tragédia maior.
A gravação continuou.
— Você não pode apagar todos os nomes do livro. Se me acontecer alguma coisa, a cópia vai para a polícia.
Uma voz masculina respondeu, fria e perfeitamente controlada:
— Você devia ter pensado nisso antes de roubar da minha família.
Depois veio um estrondo. Um grito. E o som seco de um tiro.
Theo começou a soluçar.
— Era ela — disse. — Era a voz da minha mãe.
A porta foi atingida com força. A madeira estalou.
— Sophie! — gritou Dante. — Afaste-se do menino!
Eu não sabia por que obedeci ao impulso seguinte. Corri até a janela, abri a gaveta onde guardava documentos e encontrei o pequeno broche de lua preso ao forro, exatamente como minha mãe o deixara anos antes. Ao girar a parte traseira, uma tampa minúscula se soltou.
Dentro havia um cartão de memória.
Fiquei olhando para ele, sem entender.
Minha mãe morrera quando eu tinha nove anos. Durante toda a vida, acreditei que aquele broche fosse apenas uma lembrança sem valor. Mas junto do cartão havia um pedaço de papel dobrado, com uma única frase escrita à mão: “Quando o corvo voltar, procure a família Moretti.”
O medalhão de Theo tinha a mesma figura.
A porta cedeu.
Dante entrou primeiro, alto, impecável, com os cabelos molhados e uma cicatriz fina atravessando o queixo. Atrás dele vieram Marcos e dois homens armados. Porém, quando viu o cartão na minha mão, parou como se tivesse encontrado uma parede invisível.
— Onde conseguiu isso? — perguntou.
— Pertencia à minha mãe.
— Qual era o nome dela?
— Elena Duarte.
Dante ficou completamente imóvel.
Theo levantou-se do sofá.
— Ela disse que você mandou matar minha mãe.
— Sua mãe morreu porque tentou destruir todos nós — Dante respondeu.
— Você mandou o tiro?
Ele não respondeu.
Marcos desviou o olhar. Os dois homens armados trocaram um rápido sinal. A verdade apareceu antes de qualquer confissão.
Dante deu um passo para mim.
— Entregue o cartão, Sophie.
— Você conhece minha mãe.
— Conheci.
— Ela trabalhava para você?
— Ela era contadora da minha organização.
A palavra organização soou como uma tentativa inútil de esconder o que todos ali sabiam.
Theo encarou o pai.
— Foi você quem ordenou a morte dela?
Dante fechou os olhos por um segundo.
— Não. Foi seu tio Victor. Mas fui eu quem permitiu que ele continuasse respirando depois.
O silêncio foi pior que a gravação.
Meu cartão de memória continha os registros que Elena escondera antes de morrer: pagamentos, nomes, contas e a prova de que Victor planejara assumir o império de Dante usando o próprio sobrinho como isca. O gravador de Theo registrava a discussão final. A gravação não era uma acusação contra um homem apenas. Era a chave de uma guerra.
Dante tirou o telefone do bolso.
— Ligue para meu advogado — ordenou a Marcos. — Agora.
Antes que Marcos pudesse discar, o celular dele tocou. Ele ouviu por alguns segundos e empalideceu.
— Senhor, a polícia cercou o quarteirão.
Dante olhou para mim.
— Quem recebeu uma cópia?
Eu não tive tempo de responder. Meu próprio telefone vibrou sobre a mesa. Havia uma mensagem de um número desconhecido, acompanhada de uma fotografia minha saindo do beco com Theo.
“Você encontrou o menino. Agora venha sozinha ao cais, ou ele morrerá antes do amanhecer.”
Dante leu a mensagem por cima do meu ombro.
Pela primeira vez, o poderoso homem pareceu realmente assustado.
— Victor já sabe onde vocês estão — ele murmurou.
Então o telefone tocou outra vez.
Dante atendeu, ouviu uma frase e deixou o aparelho cair no chão.
— O cais não é o alvo — disse. — Eles levaram alguém que pode abrir o cartão…
A última mensagem de Dante chegou durante a primeira neve…
Eu pensei que a verdade terminaria naquela noite. Estava errada.
O que veio depois mudou não apenas o destino de Theo, mas também o meu.
“Passei a vida protegendo minha família. Na verdade, só protegia quem eu queria continuar sendo.”
E, pela primeira vez, ele não tentou negociar.
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