PARTE 4
— Da pessoa que está esperando vocês no hospital…
Bell não terminou a frase.
Helena fez um sinal, e os agentes o algemaram antes que ele pudesse recuar. Leo tentou alcançar a porta, mas encontrou outro policial do lado de fora.
O quarto, que durante dias parecera uma prisão, encheu-se de vozes, passos e ordens curtas.
— Quem está no hospital? — perguntei.
Dominic tentou se levantar.
— Meu irmão, Marco.
A ferida abriu novamente. Sangue escorreu pelo peito dele.
— Deite-se — ordenei.
— Não posso ficar aqui.
— Pode, sim. Se morrer agora, toda essa confusão terá sido inútil.
Ele me encarou. Pela primeira vez desde que eu entrara naquele quarto, não havia autoridade em seus olhos. Havia medo.
— Marco estava internado desde o atentado — disse Helena. — Ferido, sedado e sob os cuidados de um médico contratado por Matteo. Bell recebia instruções dele. Marco é a única pessoa que pode confirmar quem autorizou a execução de Eli.
— Matteo está no hospital? — perguntei.
— A caminho. Ele acredita que seu irmão está inconsciente demais para falar.
Helena pegou o telefone.
— Vou mandar uma equipe agora.
Dominic segurou meu braço.
— Você não vai.
— Vou, sim.
— Nora, é perigoso.
— Meu irmão morreu porque homens perigosos decidiram que a vida dele não valia nada. Não vou ficar aqui contando os minutos.
— Eu não quis dizer isso.
— Então não tente decidir por mim.
O rosto dele se fechou, mas a mão soltou meu braço.
Helena chamou uma ambulância para Dominic. Enquanto os agentes vasculhavam a casa, Leo começou a telefonar para alguém. Ninguém atendia.
Depois tentou sorrir para o próprio advogado, que chegara ofegante ao corredor.
— Você vai me tirar daqui — disse Leo.
O advogado olhou para as algemas.
— Não sem saber do que você é acusado.
— Fui leal a esta família por vinte anos.
— E agora há uma gravação da sua voz discutindo assassinato.
Leo avançou contra ele.
— Faça alguma coisa!
O advogado recuou.
— Não posso representar alguém que acabou de confessar diante de mim.
Leo ficou parado, ouvindo aquilo como se viesse de muito longe.
Mais tarde, no corredor do hospital, encontrei Matteo Rossi diante do quarto de Marco.
Ele usava um terno impecável e carregava um guarda-chuva fechado, embora não tivesse uma gota de chuva sobre os sapatos. Tinha os mesmos olhos escuros de Dominic, mas sem o cansaço. Seu sorriso era educado demais.
— Nora Hayes — disse. — A enfermeira corajosa.
— E você é o homem que mandou matar meu irmão.
O sorriso desapareceu.
— Cuidado com acusações.
— Bell já falou.
— Bell fala qualquer coisa quando está assustado.
— Então vamos ouvir juntos.
Helena surgiu atrás de mim com um gravador na mão.
A voz de Matteo ecoou no corredor.
— O irmão dela viu o carregamento. Não deixem testemunhas.
Matteo ouviu as próprias palavras sem conseguir desviá-las. Seu rosto foi perdendo a cor.
— Isso foi manipulado.
— A perícia vai dizer — respondeu Helena.
— Dominic armou tudo.
— Dominic estava quase morto.
— Ele sempre foi um mentiroso.
— E você sempre foi cuidadoso — falei. — Só não foi cuidadoso o bastante.
As portas do elevador se abriram. Dois agentes apareceram.
Matteo tentou correr para a saída, mas parou quando viu as armas apontadas para ele.
— Vocês não sabem com quem estão mexendo.
— Sabemos — disse Helena. — É exatamente por isso que trouxemos reforços.
Ele foi preso naquela mesma noite.
Não houve gritos de vitória. Nenhum aplauso. Apenas o som das algemas e o eco dos passos desaparecendo pelo corredor.
Marco sobreviveu à cirurgia e confirmou tudo três dias depois. Eli encontrara registros de pagamentos ilegais ligados ao porto. Matteo ordenara a morte. Leo ajudara a encobrir. Bell adulterara os medicamentos de Dominic e planejara registrar sua morte como suicídio.
As contas foram bloqueadas.
A empresa Rossi entrou sob investigação.
E Dominic, que todos esperavam ver preso ou morto, entregou os documentos restantes à promotoria.
— Você vai perder tudo — falei quando o encontrei na sala de recuperação.
— Eu sei.
— Talvez perca até o nome.
— Talvez seja a única coisa que eu precise perder.
Ele ainda tinha o ombro imobilizado. Parecia menor sem o paletó, sem os homens armados e sem a casa silenciosa atrás dele.
— Por que me contratou? — perguntei.
— Porque seis enfermeiras foram embora.
— Essa não é a resposta.
Ele olhou para o meu relógio de moldura vermelha.
— Seu irmão foi o único funcionário do hospital que não aceitou dinheiro de Matteo. Eu vi o nome dele nos arquivos. Quando você apareceu, entendi que talvez fosse a única pessoa que não me abandonaria por medo.
— Eu quase abandonei.
— Eu sei.
— E ainda não perdoei você.
— Eu também sei.
Foi a primeira vez que não tentou se defender.
No mês seguinte, deixei a mansão.
Aluguei um apartamento pequeno perto do hospital onde consegui trabalho. A janela da cozinha emperrava nos dias frios, o aquecedor fazia um ruído irritante e o vizinho de cima caminhava como se arrastasse móveis durante a madrugada.
Mesmo assim, dormi melhor ali do que na casa Rossi.
Marco recebeu alta e foi morar com uma tia. Antes de ir, entregou-me uma caixa com os pertences de Eli.
Dentro havia uma fotografia amassada, duas chaves e um desenho infantil que ele fizera para mim anos antes. Na imagem, eu usava uma capa vermelha e segurava uma espada torta.
— Ele dizia que você sempre salvava todo mundo — contou Marco.
— Eu não consegui salvar ele.
— Mas não parou de tentar.
Passei semanas aprendendo a viver sem esperar uma ligação urgente.
Fazia café antes do amanhecer.
Pegava o ônibus das seis e quarenta.
Guardava o relógio de minha mãe na gaveta quando precisava lavar as mãos, depois o prendia novamente ao uniforme antes de entrar na emergência.
O vidro rachado continuava marcando os minutos.
Às vezes, Dominic aparecia no hospital para os curativos. Nunca entrava acompanhado. Nunca trazia presentes. Sentava na cadeira, estendia o braço e esperava.
— Como está a dor? — eu perguntava.
— Menor.
— E a culpa?
Ele demorava a responder.
— Essa ainda precisa de tratamento.
Não prometi ficar.
Ele não pediu.
Meses depois, Matteo foi condenado pelos assassinatos e pelos crimes financeiros. Leo recebeu uma pena menor em troca de cooperação, mas perdeu a casa, o dinheiro e o respeito que acreditava possuir. Bell teve a licença cassada e passou a responder por homicídio.
Dominic vendeu a mansão.
A maior parte do dinheiro foi para as famílias dos homens mortos no porto e para um fundo criado em nome de Eli.
Quando o primeiro inverno chegou, meu apartamento ficou coberto pelo cheiro de sopa e tinta guache. Marco apareceu com a filha de seis anos, Sofia, que se sentou no chão para desenhar enquanto nós conversávamos.
— Tia Nora — ela disse —, você ainda salva pessoas?
— Tento.
Ela levantou o desenho.
Era uma casa pequena, com janelas amarelas. Na porta havia uma mulher usando um relógio vermelho.
— Esta é você — explicou.
— Por que a casa não tem muros?
Sofia franziu a testa.
— Para ninguém ficar preso.
Eu precisei olhar para a janela por alguns segundos.
Naquela noite, recebi uma mensagem de Dominic.
“Vou partir amanhã. Há uma clínica no litoral onde posso trabalhar como voluntário. Se algum dia quiser conversar, estarei lá.”
Logo depois veio outra.
“Se não quiser, eu vou entender.”
Fiquei olhando para a tela até o café esfriar.
Eu poderia ter respondido com raiva. Poderia ter lembrado da arma, do sangue, do medo e da forma como ele segurara meu pulso no primeiro dia.
Mas também me lembrei da voz dele dizendo que não queria que mais ninguém morresse.
Escrevi apenas:
“Eu espero que você aprenda a viver sem mandar em tudo.”
A resposta chegou alguns minutos depois.
“Estou tentando.”
Apaguei a conversa.
Não porque odiasse Dominic.
Porque, pela primeira vez, a paz não parecia algo que eu precisava negociar.
Na primavera, comecei a coordenar o turno noturno da emergência. Ganhei uma mesa perto da janela, uma planta que quase morreu três vezes e uma caneca rachada que Sofia pintou de vermelho.
Toda manhã, antes de sair, eu prendia o relógio de minha mãe ao uniforme.
A moldura continuava descascada.
O vidro continuava rachado.
Mas os ponteiros nunca pararam.
Nem eu.
Na última noite de inverno, a neve cobriu os degraus do hospital. Parei sob a luz amarela da entrada e toquei o relógio preso ao meu peito.
Ele marcou seis horas em ponto.
Dessa vez, eu não estava contando quanto faltava para alguém morrer.
Eu estava apenas vendo o tempo passar.
E isso bastava.
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