Quando entrei no quarto de Dominic Rossi, o sangue já atravessava os lençóis de algodão como uma mancha viva, e ele apontou uma arma para a porta.
— Saia — ordenou.
A voz era baixa, rouca, quase sem força. Ainda assim, meu corpo obedeceu por um segundo. Fiquei imóvel junto à porta, com a alça da bolsa de lona cortando meu ombro e a chuva batendo contra as janelas altas.
Depois olhei para o curativo encharcado.
— Não.
O silêncio que veio em seguida pareceu mais perigoso que a arma.
Dominic abriu completamente os olhos. Eram escuros, febris e furiosos. Um homem acostumado a comprar obediência não parecia saber o que fazer quando encontrava resistência.
— Você ouviu o que eu disse?
— Ouvi. Também vi o sangue.
— Não pedi uma enfermeira.
— E eu não pedi um chefe ferido apontando uma arma para mim. Mesmo assim, aqui estamos.
O canto da boca dele se moveu, mas não chegou a ser um sorriso. Talvez fosse dor. Talvez fosse uma ameaça.
Eu tinha recebido o aviso sobre os seis profissionais que haviam abandonado aquela casa em cinco dias. Uma saíra com doze pontos no supercílio depois que ele jogara um abajur. Outra quebrara o pulso tentando trocar o curativo. A última pedira demissão chorando no corredor e jurara nunca mais pronunciar o nome Rossi.
Eu tinha aluguel vencendo na segunda-feira.
Medo era um luxo que meu saldo bancário já não podia pagar.
Coloquei minha bolsa no chão e tirei o relógio de enfermagem preso ao meu uniforme. Era pequeno, redondo, com a moldura vermelha descascada e o vidro rachado no canto. Minha mãe me dera aquele relógio antes de morrer, dizendo que até os minutos quebrados ainda podiam salvar alguém.
Dominic acompanhou o movimento.
— Bonito brinquedo.
— Funciona melhor que a sua equipe médica.
A febre deixava a pele dele brilhando. Sob as faixas, o ombro direito estava inchado e rígido. O cheiro metálico do sangue misturava-se ao perfume cítrico usado em todo o quarto para esconder alguma coisa pior.
— Se tocar em mim, vou chamar alguém.
— Chame.
Ele alcançou o telefone na mesa de cabeceira, mas os dedos tremeram antes de encontrá-lo. Vi a fração de segundo em que a dor venceu o orgulho.
— O senhor está com febre alta — falei. — O curativo precisa ser trocado agora.
— Não preciso de nada.
— Então o sangue está saindo por vontade própria?
Os olhos dele se estreitaram.
— Você fala demais.
— E o senhor sangra demais.
Peguei a bandeja metálica deixada ao lado da cama. Havia gaze seca, um frasco de antisséptico aberto e uma seringa ainda lacrada. Nada para controlar uma infecção daquele tamanho. Nada para justificar por que alguém o mantinha sozinho, trancado e praticamente sedado.
Quando me aproximei, Dominic ergueu a arma.
— Último aviso.
Meu coração bateu tão forte que senti a pulsação no pescoço. Mesmo assim, puxei uma cadeira e sentei ao lado dele.
— Se atirar, vai precisar de outra enfermeira. E pelo que ouvi, elas estão ficando difíceis de encontrar.
O braço dele baixou um centímetro.
Foi o bastante.
Comecei a desfazer as bandagens. O sangue tinha colado o tecido à pele. Dominic fechou os olhos e apertou a mandíbula, mas não gritou. Sob o curativo, a ferida estava escura nas bordas.
— Quem fez isso? — perguntei.
— Você não foi contratada para fazer perguntas.
— Fui contratada para impedir que morra.
— Talvez eu queira morrer.
Parei.
Ele abriu os olhos de novo, e dessa vez não havia apenas raiva neles. Havia cansaço. Um cansaço tão profundo que quase me fez esquecer todos os avisos.
— Por quê? — perguntei.
— Porque, se eu continuar vivo, muita gente vai morrer comigo.
Antes que eu pudesse responder, ouvimos passos no corredor. A maçaneta começou a girar, embora Leo tivesse dito que ninguém entraria sem ser chamado. Dominic segurou meu pulso com força inesperada e puxou-me para perto da cama.
A porta abriu apenas alguns centímetros.
Uma mão surgiu pela fresta, carregando uma pasta de couro escuro, e Dominic sussurrou junto ao meu ouvido:
— Não deixe que ele veja o que está no meu bolso…
PARTE 2
— Não deixe que ele veja o que está no meu bolso…
A mão segurando a pasta entrou mais um pouco. Reconheci o homem antes que seu rosto aparecesse: Leo, o administrador que me recebera junto aos portões de ferro.
Dominic ainda segurava meu pulso. A palma dele estava quente, molhada de suor, e os dedos apertavam como se minha vida dependesse do meu silêncio.
— Senhor Rossi? — chamou Leo. — O doutor chegou.
Dominic não respondeu.
Eu terminei de cortar a gaze presa à ferida e encontrei, no bolso interno do roupão dele, um pequeno gravador de voz embrulhado em plástico. O aparelho pressionava minha mão através do tecido.
— O que há na pasta? — perguntei, mantendo os olhos no curativo.
— Nada que diga respeito a você — respondeu Leo da porta.
— Então por que entrou sem ser chamado?
A pasta parou no ar.
Dominic abriu os olhos.
— Leo, vá buscar o médico.
— O doutor Bell já está esperando.
— Eu disse para sair.
Pela primeira vez, vi Leo hesitar. Foi mínimo, mas suficiente. Ele não parecia um empregado diante do patrão. Parecia um homem calculando se ainda precisava fingir obediência.
— O médico precisa examinar a ferida — insistiu.
— Eu cuidarei dela — falei.
Leo olhou para o sangue em minhas luvas.
— Você não tem autorização para alterar o tratamento.
— A autorização está na minha bolsa, assinada pela clínica que me contratou.
— A clínica foi paga pela família Rossi.
— E a infecção continua sendo uma infecção.
Dominic puxou o ar entre os dentes quando limpei a parte mais profunda da ferida. A bala atravessara o ombro, mas havia um fragmento preso perto do osso. A pele ao redor estava quente demais.
— Ele está intoxicado — falei. — O antibiótico que deram não está funcionando.
— O doutor escolheu o protocolo — disse Leo.
— Então o doutor escolheu mal.
Leo entrou no quarto. O cheiro de couro molhado veio com ele. Dominic tentou se erguer, mas o movimento abriu novamente a ferida. Um fio de sangue escorreu pelo peito dele.
— Fique deitado — ordenei.
— Você gosta de dar ordens.
— Só para homens que insistem em morrer na minha frente.
Por um segundo, algo quase humano atravessou o rosto de Dominic. Depois ele olhou para Leo.
— Feche a porta.
Leo obedeceu, mas não soltou a pasta.
Dominic tirou o gravador do bolso e o colocou na minha mão por baixo do lençol.
— Há uma gravação — murmurou. — Se eu morrer, entregue isso à promotora Helena Duarte. Não a ninguém da minha família.
— Quem está tentando matá-lo?
— A pessoa que controla esta casa.
Leo percebeu o movimento. Seus olhos desceram para minha mão.
— O que você recebeu?
— Uma gaze — respondi.
— Gaze não pesa assim.
Dominic apontou a arma para ele.
— Saia, Leo.
Dessa vez, o administrador não se mexeu.
— O senhor não está em condições de me ameaçar.
Meu estômago se contraiu. A chuva batia no vidro, e o relógio de moldura vermelha marcava quatro minutos desde que eu abrira o curativo. Quatro minutos que pareciam uma vida inteira.
— Dominic — falei baixo —, se ele ficar, o senhor pode morrer antes de eu terminar.
— Já passei dessa fase.
— Não. Ainda não.
Leo deu um passo em nossa direção.
— Entregue o aparelho, enfermeira.
— Não sei do que está falando.
— Sabe, sim.
A porta se abriu atrás dele. Um homem magro de jaleco entrou carregando uma maleta preta. O doutor Bell nem olhou para mim. Seus olhos foram direto para Dominic, depois para a pasta.
— Cheguei tarde? — perguntou.
Dominic ficou pálido.
— Você nunca chega tarde, doutor. Sempre chega exatamente quando precisa.
Bell fechou a porta e tirou uma seringa da maleta.
— Isso vai deixá-lo calmo.
— Não aplique nada — ordenei.
O médico sorriu.
— Você foi contratada para trocar curativos, não para interferir.
— Então explique por que há sedativo suficiente para derrubar um cavalo e nenhum antibiótico adequado.
A mão dele congelou sobre a seringa.
Dominic olhou para mim, e naquele instante compreendi que ele não me contratara apenas para cuidar de uma ferida. Ele precisava de uma testemunha.
— Ligue o gravador — sussurrei.
— O quê? — Leo avançou.
Dominic disparou para o teto. O estampido fez o quarto estremecer, e um pedaço de gesso caiu sobre os lençóis.
— Ninguém se move — disse ele.
O doutor Bell empalideceu.
Dominic pressionou o botão do aparelho escondido em minha mão, mas antes que qualquer voz saísse do gravador, um telefone começou a tocar no bolso de Leo.
Ele atendeu, ouviu apenas alguns segundos e olhou para Dominic com um sorriso vazio.
— A promotora Helena Duarte está morta — disse ele. — E agora ninguém pode salvar você…
PARTE 3
— A promotora Helena Duarte está morta — disse Leo. — E agora ninguém pode salvar você…
Por um instante, ninguém respirou.
O doutor Bell ainda segurava a seringa, e uma gota transparente tremia na ponta da agulha. Dominic parecia ter envelhecido dez anos em um segundo.
— Quem ligou? — perguntou.
— O homem que vai assumir tudo quando você morrer.
— Diga o nome.
Leo sorriu.
— Matteo.
O nome caiu no quarto como uma pedra.
Dominic fechou os olhos. Eu esperava raiva, mas vi reconhecimento. Ele já sabia.
— Meu tio — disse, quase sem voz.
— Seu sucessor — corrigiu Leo.
Bell se moveu rapidamente. Enfiei a bandeja metálica entre nós, e a seringa bateu no chão. Dominic disparou outra vez, agora contra a parede. O médico recuou, e Leo levou a mão ao paletó.
— Não faça isso — falei, sem saber se me referia à arma, à seringa ou à morte que parecia cercar aquela cama.
Dominic olhou para mim.
— Aperte o botão do gravador.
Eu já o segurava com as duas mãos. Pressionei.
Uma voz masculina preencheu o quarto, abafada por ruídos de motor e chuva.
— Quando o chefe apagar, o doutor mantém a dose. O sangue será encontrado no carro. Todos acreditarão que Dominic Rossi perdeu o controle e tentou fugir ferido.
A voz de Leo veio depois, nítida demais.
— E a enfermeira?
Outra voz respondeu.
— A nova não importa. Se ela descobrir, será colocada na mesma história.
Meu corpo gelou.
Dominic não piscou.
A gravação continuou.
— Depois do funeral, Matteo assume os portos e as contas. O rapaz de Hayes será usado como prova de que a enfermeira tinha motivo para vingança.
Meu sobrenome ecoou no quarto.
Eu não entendi imediatamente. Depois lembrei do meu irmão Eli, morto três meses antes em um suposto assalto no estacionamento do hospital. O inquérito dizia que fora uma coincidência. Um ladrão desconhecido. Um tiro no peito.
— O que eles fizeram com Eli? — perguntei.
Dominic ficou imóvel.
— Nora…
— O que eles fizeram com meu irmão?
Leo deu um passo para trás.
— Desligue isso.
— Responda! — gritei.
A gravação revelou a voz de Matteo:
— O irmão dela viu o carregamento. Não deixem testemunhas.
O aparelho caiu da minha mão, mas continuou funcionando no tapete.
Dominic baixou a arma.
— Eu descobri há seis dias. Matteo armou o atentado contra mim porque Eli encontrou os registros. Tentei protegê-lo, mas cheguei tarde demais.
— Você sabia?
— Eu sabia que seu irmão fora morto por minha organização. Não sabia que Leo estava envolvido até ouvir esta gravação.
Leo avançou, furioso.
— Você vai morrer aqui, Dominic.
A porta explodiu para dentro antes que ele alcançasse a arma. Dois agentes entraram, seguidos por uma mulher de cabelos grisalhos e sobretudo encharcado.
— Helena Duarte — murmurei.
Ela levantou o telefone.
— A notícia da minha morte foi um teste. Funcionou.
Leo empalideceu. Bell deixou a seringa cair e ergueu as mãos.
Helena recolheu o gravador do tapete.
— A gravação está intacta. E temos autorização para registrar esta propriedade inteira.
Dominic soltou o ar, mas não pareceu aliviado.
— Matteo está onde?
Helena não respondeu de imediato. Ela olhou para mim.
— Nora, precisamos conversar sobre seu irmão. Há algo que ainda não lhe contaram.
Meu peito apertou.
— O quê?
Ela tirou um envelope fino da bolsa e o entregou a Dominic, não a mim.
— O homem que matou Eli não agiu sozinho. E alguém dentro deste quarto pagou para que o corpo dele desaparecesse antes da autópsia.
Todos olharam para Leo.
Mas Helena virou o rosto lentamente para Bell.
O médico começou a tremer.
— Eu só segui ordens — sussurrou.
— De quem? — perguntei.
Bell olhou para Dominic, depois para mim, e a resposta pareceu arrancar o pouco de cor que ainda havia no rosto do chefe da casa.
— Da pessoa que está esperando vocês no hospital…
Ele ouviu a própria voz e deixou de sorrir…
Eu achava que a verdade terminaria naquela gravação.
Mas o que veio depois mudou tudo o que eu pensava sobre culpa, liberdade e recomeços.
“Não deixem testemunhas.”
O rosto dele perdeu toda a cor.
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