PARTE 4
…os passos pararam diante da sala de registros.
Joana segurou meu braço.
— Elena, o que fazemos?
Lucian tirou o cartão de memória do prontuário e o entregou a ela.
— Vá para a sala de servidores. Há uma saída pelo corredor da farmácia.
— E vocês?
— Vamos dar a Garrett o que ele quer.
Eu olhei para Lucian.
— Não vamos entregar você.
— Não foi isso que eu quis dizer.
Ele apontou para o telefone.
— Vamos dar a ele a própria voz.
Joana saiu correndo. Eu permaneci na sala, com o aparelho ainda encostado ao ouvido.
— Elena? — chamou Garrett. — Você está aí?
— Estou.
— Ótimo. Sabia que, no fim, você obedeceria.
Meu estômago se contraiu, mas minha voz saiu tranquila.
— A sala quatro fica no fim do corredor.
— Eu sei onde fica.
— Então venha me buscar.
Houve silêncio.
Garrett odiava quando eu não implorava.
— Você parece diferente.
— Estou cansada de ter medo.
— Não confunda coragem com desespero.
— Não confundo mais nada.
Desliguei.
Lucian já havia conectado o telefone a um pequeno gravador que carregava no bolso. A chamada inteira estava salva. A ameaça contra Joana. A exigência da confissão. A ordem para levar Lucian vivo.
Tudo.
— Isso basta? — perguntei.
— Para começar.
O telefone dele vibrou. Uma mensagem de Joana apareceu: “O arquivo foi enviado para três promotores e para a imprensa. A polícia está vindo, mas não sabemos em quem confiar.”
A antiga versão de mim teria entrado em pânico ao ouvir aquilo.
A mulher que fizera três denúncias contra Garrett e assistira às três desaparecerem teria acreditado que qualquer distintivo era uma ameaça.
Mas agora eu tinha documentos, gravações e testemunhas espalhadas pela cidade.
Dessa vez, ninguém poderia apagar tudo.
Às 4h19, caminhamos até a sala de cirurgia quatro. O corredor estava vazio. As lâmpadas fluorescentes zumbiam acima de nós. O relógio da parede marcava 4h17, exatamente como na noite em que o contador morreu.
Lucian parou diante da porta.
— Quando entrar, fique perto da mesa.
— Você está me dando ordens de novo.
— Estou tentando mantê-la viva.
— Então fique perto de mim.
Ele me encarou por um longo segundo.
— Isso é uma ordem?
— É.
Entramos.
Garrett estava no centro da sala, vestido com o uniforme escuro e segurando uma arma. O comissário Dorian Vale permanecia atrás dele, sem casaco, como se tivesse vindo apenas para assistir.
Dois homens guardavam a saída.
Garrett olhou para meu pulso.
— Você ainda usa o relógio.
— E você ainda usa o medo como se fosse autoridade.
O sorriso dele desapareceu.
— Ajoelhe-se.
— Não.
— Elena.
— Você ouviu.
Vale deu um passo à frente.
— Senhora Voss, entregue a unidade e ninguém precisará se machucar.
— O senhor já machucou pessoas suficientes.
Garrett apontou a arma para Lucian.
— Ele primeiro.
Lucian ergueu as mãos.
— Você deveria ter verificado o telefone do policial que mandou ao apartamento dela.
Garrett ficou imóvel.
— O que você está falando?
— A ordem que você enviou está gravada. A ameaça contra a colega dela também.
Vale virou-se para Garrett.
— Você falou com ela?
— Cale a boca — respondeu Garrett.
Foi a primeira vez que ouvi medo na voz dele.
Eu toquei o relógio de latão. Sob a tampa amassada, havia um pequeno transmissor que Lucian instalara minutos antes. A luz vermelha piscava.
A porta se abriu.
Não eram os homens de Vale.
Eram agentes da promotoria, policiais da corregedoria e uma repórter que Joana havia chamado, todos acompanhados por uma juíza que trazia mandados de prisão assinados.
Vale tentou alcançar a arma de Garrett.
— Não faça isso — disse a juíza.
Garrett recuou.
— Elena, diga a eles que você está confusa.
— Não estou.
— Diga que Lucian a ameaçou.
— Não.
— Você sabe que ninguém vai acreditar em uma mulher instável.
A frase ecoou na sala.
E, pela primeira vez, ele ouviu a própria crueldade do lado de fora dela.
O agente da corregedoria reproduziu o áudio no alto-falante do telefone.
A voz de Garrett encheu a sala:
“Se não vier, vou entrar no hospital e começar pela mulher que divide o turno com você.”
Depois veio a gravação da sala de cirurgia.
“Quero Lucian. E quero que você confesse que roubou as provas.”
Garrett escutou em silêncio.
Sua própria voz parecia pertencer a um estranho.
Ele olhou para mim.
— Você me gravou.
— Você se gravou.
Vale foi algemado primeiro. Depois, os dois homens da porta. Garrett continuou parado, como se ainda esperasse que alguém viesse salvá-lo.
Ninguém veio.
Quando o agente se aproximou, ele tentou sorrir.
— Elena, podemos conversar.
— Já conversamos por anos.
— Eu amava você.
— Amor não precisa de ameaças para ser ouvido.
Ele estendeu a mão.
Eu não a segurei.
Garrett foi levado pelo corredor às 4h41. O relógio acima da porta continuava parado em 4h17, e eu não consegui deixar de pensar que certos momentos permanecem congelados até que alguém finalmente diga a verdade.
Lucian foi levado para a cirurgia meia hora depois. O ferimento abdominal havia reaberto. Antes de entrar, ele me entregou a pasta preta.
— Fique com isto.
— Não posso.
— Pode. Agora ela é uma prova, não um peso.
— E você?
— Vou sobreviver.
— Isso é uma promessa?
— É a primeira que pretendo cumprir.
Ele desapareceu atrás das portas.
Passei o resto da manhã numa sala de espera, com o uniforme seco e o pulso marcado pela borda do relógio. Joana sentou-se ao meu lado e colocou um copo de café em minhas mãos.
— Você está tremendo — disse ela.
— Só agora percebi.
— Tem medo de que ele volte?
Olhei para o corredor vazio.
— Tenho medo de continuar esperando que ele volte.
Duas semanas depois, Garrett foi formalmente acusado de homicídio, extorsão, conspiração e abuso de autoridade. Vale perdeu o cargo e foi preso no próprio escritório. As gravações chegaram aos jornais, e as três denúncias antigas contra Garrett foram reabertas.
Eu não fui ao tribunal no primeiro dia.
Não precisava vê-lo atrás de uma parede de vidro para saber que a vida dele tinha mudado.
A mudança verdadeira aconteceu quando o advogado que ele contratara recusou o caso depois de ouvir as gravações.
Garrett telefonou para mim naquela noite, de um número desconhecido.
— Elena, só me escute.
— Estou escutando.
— Eu posso explicar tudo.
— Você já explicou. Muitas vezes. Eu apenas parei de traduzir suas ameaças como amor.
Ele ficou em silêncio.
— Você vai mesmo testemunhar contra mim?
— Vou dizer a verdade.
— Depois de tudo que fiz por você?
Fechei os olhos.
— Você não fez por mim. Você fez para me possuir.
Desliguei antes que ele respondesse.
Naquela mesma semana, deixei o apartamento do terceiro andar. A janela da cozinha continuava com a marca escura da mão de Lucian no parapeito, e o piso do banheiro guardava uma mancha que não saiu completamente.
No quarto, o espaço sob a cama estava vazio.
O lençol pendia até o chão, imóvel.
Aquele vazio deveria ter me assustado.
Mas, pela primeira vez, ele parecia espaço para alguma coisa nova.
Lucian recebeu alta depois de vinte e três dias. O depoimento dele confirmou a ligação entre Vale e Garrett, mas também expôs os crimes que ele próprio cometera antes de decidir entregar a rede. Ele aceitou responder por eles.
Eu respeitei isso.
Ele não tentou transformar-se em herói para que eu pudesse amá-lo.
Quando nos despedimos no hospital, ele me entregou uma pequena chave.
— É de um apartamento em outra cidade. Seguro. Está no seu nome.
— Não quero que alguém me salve.
— Então use como quiser. Ou jogue fora.
Guardei a chave.
Não porque precisava de Lucian.
Porque, pela primeira vez, uma escolha vinha acompanhada de liberdade.
Cinco meses depois, eu morava numa cidade costeira chamada Santa Amália e trabalhava no setor de emergência de um hospital menor. O mar ficava a seis quadras da minha janela. Todas as manhãs, eu comprava pão numa padaria onde a dona já sabia que eu preferia a ponta crocante.
Eu dormia com a janela aberta.
Não conferia a fechadura três vezes.
Às vezes, ainda acordava às 2h13, com o coração acelerado. Nessas noites, caminhava até a cozinha e preparava chá de erva-doce. O medo não desaparecera completamente.
Mas já não comandava a casa.
Joana me visitou no início do inverno. Trouxe uma caixa de lápis e uma fotografia do hospital.
— Para você não esquecer de onde saiu — disse.
— Eu não vou esquecer.
Sentamos na varanda enquanto meu sobrinho, Miguel, desenhava no chão. Ele tinha cinco anos e não sabia nada sobre Garrett, Vale ou a pasta preta. Sabia apenas que o relógio no meu pulso estava quebrado.
— Tia Elena, por que ele nunca anda?
— Porque ficou cansado.
Miguel pensou um pouco.
— Então conserta.
Olhei para a tampa amassada. Minha mãe me dera aquele relógio no dia em que saí de casa, dizendo que eu sempre encontraria o caminho de volta enquanto pudesse ouvir o tempo.
Eu não queria voltar.
Queria seguir.
No mês seguinte, recebi uma carta de Garrett. O envelope tinha o carimbo da penitenciária e duas páginas escritas à mão.
“Eu sei que destruí tudo. Ainda penso em você. Quando eu sair, podemos começar de novo.”
Li apenas uma vez.
Depois, escrevi uma resposta curta.
“Não existe recomeço onde eu precise continuar me escondendo.”
Não enviei pela metade. Não acrescentei explicações. Não pedi desculpas.
Coloquei a carta na caixa do correio e voltei para casa antes que escurecesse.
Naquela noite, Miguel dormiu no sofá, abraçado a um dinossauro de pelúcia. A chaleira apitou. O mar bateu nas pedras com um som lento e constante.
Tirei o relógio do pulso e o deixei sobre a mesa.
Pela primeira vez, não tentei dar corda.
O mostrador continuou parado em 4h17.
E, ainda assim, eu sabia exatamente onde estava indo.
O tempo não voltou.
Eu fui em frente.
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