Quando Leo Santoro me encurralou diante da porta principal, eu entendi que aquela noite comum jamais chegaria a começar.
O relógio de pêndulo marcava oito horas. Cada badalada parecia bater dentro do meu peito. Eu segurava a pequena bolsa preta com tanta força que a fivela de metal em forma de andorinha, herança da minha mãe, pressionava minha palma.
— Tire esse vestido — Leo ordenou.
A voz dele era baixa, mas atravessou o saguão como um tiro.
— O quê?
— Cancele o encontro.
Eu olhei para a porta de carvalho atrás dele, depois para o homem que controlava metade dos clubes, armazéns e políticos daquela cidade. Leo estava sem paletó, com a camisa branca aberta no pescoço e o nó da gravata pendendo de lado. Cheirava a uísque, madeira de cedro e óleo de arma.
— Estou fora do expediente — respondi, tentando manter a voz firme. — O senhor não pode me impedir de sair.
— Não disse que podia.
— Então saia da frente.
Ele não saiu.
Durante um ano, eu havia atravessado aquela mansão como uma sombra. Limpava a biblioteca, polia a prata, apagava manchas que ninguém comentava e fingia não perceber homens armados nos corredores. O salário pagava o quarto particular do meu pai numa clínica respeitável. Por isso eu engolia o medo.
Mas naquela noite eu não vestia o uniforme largo que escondia meu corpo. Usava um vestido cor de vinho comprado numa loja de roupas antigas, com alças finas e seda acompanhando cada curva que eu passara meses tentando apagar.
Eu queria uma noite normal.
Um restaurante simples. Uma conversa sobre filmes. Um homem gentil perguntando se eu preferia massa ou sobremesa.
Greg Davis era exatamente esse tipo de homem. Trabalhava com cálculos, usava suéteres bege e falava mais sobre o cachorro do que sobre si mesmo. Às sete e cinquenta e cinco, ele havia enviado uma mensagem: Estou esperando por você.
Leo conhecia até o nome dele.
— Gregory Allan Davis — disse, aproximando-se. — Trinta e dois anos, trabalha numa empresa financeira, dirige um carro azul, mora sozinho e tem um cachorro chamado Buster.
Meu estômago se contraiu.
— Por que você sabe disso?
— Você mora sob o meu teto.
— Eu trabalho sob o seu teto. Isso é diferente.
Os olhos dele escureceram.
— Ele não entende o mundo em que você está entrando.
— Estou entrando num restaurante, Leo. Não numa guerra.
Foi a primeira vez que o chamei pelo nome. O maxilar dele endureceu.
— Você se vestiu assim para ele?
— Vesti assim por mim.
A resposta pareceu atingi-lo mais do que qualquer insulto. A mão dele se fechou ao lado do corpo, e por um segundo vi algo que nunca tinha visto naquele homem: insegurança.
Então ele agarrou minha cintura.
Não foi um gesto brutal, mas foi suficiente para me prender contra a base de mármore da escada. Apoiei as duas mãos no peito dele. O coração de Leo batia depressa sob a camisa.
— Ele vai olhar para você — murmurou junto ao meu ouvido. — Vai olhar para esse vestido e acreditar que tem algum direito.
— Solte-me.
— Tessa…
— Agora.
O relógio parou de soar. A mansão ficou silenciosa.
Foi quando ouvi passos no corredor lateral. Alguém se aproximava depressa. Leo levantou o rosto, e a expressão dele mudou de ciúme para alerta.
A porta da biblioteca se abriu atrás de nós.
Marta, a governanta, apareceu segurando uma pasta de couro apertada contra o peito.
— Senhor Santoro — ela disse, pálida. — Encontramos o que o senhor pediu.
Leo soltou minha cintura, mas não desviou os olhos de mim.
— Traga até aqui.
Marta caminhou na nossa direção. A fivela em forma de andorinha escorregou da minha mão e bateu no chão. Quando me abaixei para pegá-la, Leo se agachou primeiro e recolheu o objeto.
Ele virou a pequena andorinha entre os dedos.
Seu rosto perdeu a cor.
— Onde conseguiu isto? — perguntou.
Antes que eu pudesse responder, ele arrancou a pasta das mãos de Marta e colocou a mão sobre o fecho metálico…
PARTE 2
…mas não abriu a pasta imediatamente.
Leo continuou olhando para a andorinha de cobre como se ela tivesse acabado de falar. A luz amarela do saguão refletia nas asas gastas, mostrando uma pequena rachadura no meio do metal.
— Era da minha mãe — falei.
A garganta dele se moveu.
— Sua mãe se chamava Helena?
O ar desapareceu do meu peito.
— Como sabe esse nome?
Marta fechou a porta da entrada e lançou um olhar nervoso para os dois lados do corredor.
— Senhor, precisamos conversar na biblioteca.
— Não — Leo respondeu. — Ela fica.
— Eu não quero ficar em conversa nenhuma — falei. — Quero sair.
Leo colocou a andorinha sobre a mesa lateral, mas manteve a mão ao lado dela, como se temesse que alguém a roubasse.
— Seu pai ainda está na clínica da Rua do Lago?
Minha irritação virou medo.
— Não mencione meu pai.
— Há quanto tempo você acredita que ele está doente?
— O que isso significa?
Marta abriu a pasta sobre a mesa. Dentro havia fotografias, cópias de registros e um envelope pardo preso por uma fita preta. Eu reconheci a caligrafia da minha mãe na primeira página antes mesmo de enxergar as palavras.
Helena Jenkins.
Minha mãe morrera quando eu tinha nove anos. Durante toda a minha vida, meu pai dissera que ela havia sido uma mulher simples, sem ligações com pessoas perigosas. Eu nunca vira aquela caligrafia desde a infância.
— Onde encontrou isso? — perguntei.
— No escritório do meu tio — Leo disse.
— Por que seu tio guardaria algo da minha mãe?
Ele passou a língua pelos lábios, como se tivesse de escolher entre duas ruínas.
— Porque Helena trabalhou para a família Santoro antes de você nascer.
Ri sem humor.
— Minha mãe foi costureira.
— Ela também cuidava dos livros contábeis.
Marta puxou uma fotografia. Nela, minha mãe aparecia mais jovem, ao lado de um homem de terno escuro. Eu não conhecia o homem, mas reconheci imediatamente o broche preso ao vestido dela: a mesma andorinha de cobre.
— Isso não prova nada — sussurrei.
— Prova que sua mãe estava na mansão na noite em que meu pai foi assassinado — respondeu Leo.
A sala pareceu inclinar-se.
— Está dizendo que ela matou alguém?
— Estou dizendo que ela tentou impedir um assassinato.
Ele abriu outra fotografia. Havia uma porta de garagem, um relógio marcando duas e dezessete da manhã e uma figura masculina carregando uma caixa metálica.
— Meu tio Vincenzo passou vinte anos dizendo que Helena roubou dinheiro da família e fugiu. Meu pai acreditou nele. Depois morreu. Mas os registros nunca fecharam.
— E o que eu tenho a ver com isso?
Leo apontou para o broche.
— A andorinha era usada por um grupo de funcionários que ajudava pessoas a escapar das ameaças da família. Cada peça escondia um número gravado por dentro.
Tirei o broche da mesa e virei a parte traseira. Nunca havia percebido a sequência minúscula marcada no cobre: 17-04.
Marta ficou com os olhos marejados.
— Esse era o número do cofre antigo — ela disse.
Leo pegou o telefone.
— Vou mandar buscar seu pai.
— Não! — avancei. — Você não vai levar meu pai para lugar nenhum.
— A clínica foi paga por uma empresa ligada ao meu tio.
Minha mão começou a tremer.
— Você sabia disso há um ano e ainda me deixou trabalhar aqui?
— Eu não sabia quem você era quando foi contratada.
— Mas descobriu.
Ele não respondeu.
O silêncio foi uma confissão.
Naquele momento, o telefone dele vibrou. Leo atendeu, ouvindo sem falar. O rosto dele ficou imóvel, mas os dedos apertaram o aparelho.
— Quando? — perguntou.
Pausa.
— Não toque nele. Estamos indo.
Ele desligou.
— O que aconteceu? — perguntei.
Leo olhou para mim, e todo o ciúme que o fizera bloquear a porta havia desaparecido. Restava apenas um medo nu.
— Seu pai acordou.
Meu coração parou.
— Ele estava inconsciente havia três anos.
— Acabou de dizer meu nome — Leo respondeu. — E depois pediu que eu encontrasse você antes de Vincenzo…
Um estampido veio do lado de fora da mansão. As janelas tremeram. Marta gritou. Leo puxou uma arma de dentro da gaveta e ficou diante de mim.
No telefone, uma voz desconhecida começou a falar pelo viva-voz, repetindo uma frase que fez Leo empalidecer:
— A filha de Helena não pode chegar viva à clínica…
PARTE 3
…Leo arrancou o telefone da mesa, mas a voz continuou ecoando até a chamada ser encerrada.
Por alguns segundos, ninguém se mexeu.
Depois ele segurou meu braço.
— Vamos para a clínica.
— Não vou a lugar nenhum com você sem saber a verdade.
— Tessa, homens armados estão atrás do seu pai.
— E talvez estejam atrás de mim por causa de algo que você escondeu.
Leo olhou para Marta.
— Feche todas as entradas.
— Já estão fechadas — ela respondeu. — Mas há alguém dentro da propriedade.
O som de passos correu pelo andar superior. Leo me puxou para a biblioteca e trancou a porta. A chuva batia nas janelas, e o broche de cobre tremia entre meus dedos.
— Abra a pasta — exigi.
— Não aqui.
— Agora.
Ele encarou meu rosto por um longo instante. Então retirou o envelope preso pela fita preta.
— Isto estava no cofre de Vincenzo. Só foi encontrado porque o código da sua mãe abriu a fechadura.
— Abra.
Leo rasgou a fita.
Dentro havia uma gravação antiga, três páginas escritas à mão e um documento bancário. Marta levou os papéis para perto do abajur. Eu li a primeira linha e senti os joelhos fraquejarem.
Declaração de Helena Jenkins, datada de dezessete de abril.
Minha mãe escrevera que Vincenzo Santoro desviava dinheiro da família, traficava informações para um grupo rival e planejara matar o próprio irmão, o pai de Leo, para assumir o controle dos negócios. Naquela noite, Helena copiara os registros e entregara as provas ao meu pai, Daniel Jenkins.
— Meu pai sabia? — perguntei.
— Sabia — Leo disse. — E tentou fugir com sua mãe.
Marta colocou a gravação num aparelho antigo. A voz de Helena preencheu a biblioteca, frágil, mas nítida.
— Se algo acontecer comigo, Daniel não traiu ninguém. Vincenzo me obrigou a esconder os livros. Leo precisa ouvir isto quando for adulto. Não confie no homem que sorri antes de negar tudo.
Minha respiração se partiu.
— Por que meu pai nunca me contou?
Leo respondeu com dificuldade:
— Porque Vincenzo ameaçou matar você. Depois envenenou Daniel aos poucos e fez parecer uma doença degenerativa. A clínica era controlada por ele. Seu pai não estava inconsciente o tempo todo. Ele estava sedado.
Marta cobriu a boca.
— Meu Deus.
Eu me virei para Leo.
— Você sabia que ele estava sendo mantido sedado?
— Descobri há seis dias. Por isso procurei os registros. Eu estava tentando confirmar tudo antes de colocar você em perigo.
— E, mesmo assim, achou que o maior problema era meu vestido?
Ele abaixou os olhos.
— Não tenho desculpa.
A honestidade inesperada me atingiu mais do que uma defesa teria atingido.
Nesse instante, a maçaneta começou a girar.
Leo levantou a arma. Marta apagou o abajur. Eu escondi o documento contra o peito.
A porta se abriu devagar, e um dos seguranças caiu para dentro, com sangue na camisa. Atrás dele apareceu Vincenzo Santoro, sorrindo exatamente como minha mãe descrevera.
— Que reunião comovente — disse ele.
Leo apontou a arma.
— Você não vai tocar nela.
Vincenzo riu.
— Ainda acredita que pode proteger alguém? Seu pai também acreditava.
Ele ergueu um segundo documento.
— Antes de me matar, leia isto. A clínica acaba de transferir Daniel Jenkins para outro endereço. E, se quiser encontrá-lo, Leo terá de entregar a própria mansão antes do amanhecer.
O telefone de Marta tocou sobre a mesa.
Ela atendeu e ficou escutando em silêncio. Depois olhou para mim.
— Tessa, seu pai não foi levado por Vincenzo.
— Então por quem?
Marta apertou o aparelho contra o ouvido. A voz do outro lado pronunciou um nome que ninguém esperava ouvir.
Era o nome do homem que eu acreditava ser apenas um acompanhante gentil de um encontro cancelado…
Quando ouviu a própria voz, Leo finalmente baixou os olhos…
Eu pensei que a verdade encerraria tudo. Mas ela apenas abriu a porta para a parte mais difícil.
O verdadeiro final mudou o significado de cada escolha.
“Eu fiz você ter medo de mim.”
E, pela primeira vez, não tentou se justificar.
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