PARTE 4
Parecia alguém tentando escapar antes que a porta se fechasse.
—Ximena, você sabia dessa transferência? — perguntei.
—Não — ela respondeu, recuando. — Eu não sabia de dinheiro nenhum.
Maurício pegou o celular.
—Ninguém vai a lugar algum. Isso é um mal-entendido.
A inspetora apareceu na tela do telefone, porque a ligação permanecera aberta.
—Senhor Maurício, não desligue. Uma equipe está a caminho do endereço informado na denúncia.
Ele desligou mesmo assim.
Depois ligou para o banco.
—Bloqueiem a conta da Laura. Houve uma fraude.
Ouvi a atendente pedir os dados dele. Maurício respondeu rápido, com a voz trêmula. Quando desligou, ligou para outro número.
—Fernando, você precisa dizer que eu estava trabalhando naquele dia.
Fernando ficou imóvel.
—Eu não vou mentir por você.
—Sou seu irmão.
—E ela é sua esposa. Isso nunca impediu você de mentir para ela.
Maurício olhou ao redor como se procurasse uma saída escondida na parede.
Renato levantou-se, guardou seus documentos e vestiu o paletó.
—Aonde você vai? — perguntou Maurício.
—Para longe deste problema.
—Você não pode me abandonar agora.
—Posso. E estou fazendo isso.
Foi assim que a última pessoa que ainda fingia ajudá-lo deixou a sala.
Às onze e quinze, os agentes chegaram ao escritório da gráfica. Eu os acompanhei porque precisava entregar os documentos originais, mas não entrei com eles na sala de Maurício. Fiquei no corredor, segurando a chave azul dentro da minha mão fechada.
Do outro lado da porta, ouvi minha própria voz numa gravação.
Era a gravação feita por Ximena durante o jantar de aniversário.
“Você terá trinta e cinco dias para organizar sua vida, porque comigo você não vai mais morar.”
Depois veio a voz de Maurício, registrada no celular dele quando falava com um fornecedor:
“Laura ameaça ir embora, mas não vai. Ela depende de mim. Basta pressionar um pouco.”
O som saiu do aparelho do investigador e atravessou o corredor.
Maurício escutou tudo.
Eu soube pelo silêncio que veio depois.
Não era a mesma coisa ouvir-se como herói de uma história contada por si mesmo. Era completamente diferente escutar a própria crueldade sem poder interrompê-la.
Quando ele saiu da sala, seu rosto estava sem cor.
—Você guardou tudo? — perguntou.
—Você me ensinou a guardar documentos.
—Eu não queria que chegasse a esse ponto.
—Você levou cada conversa até esse ponto.
Naquela tarde, os investigadores confirmaram que a segunda transferência fora feita para uma conta aberta com os dados de Ximena, mas sem autorização dela. Maurício planejava usar o dinheiro como pagamento para um fornecedor e, depois, culpá-la pelo desvio. A suposta saída do país era uma reserva de viagem feita com os documentos digitais que ele copiara do computador da gráfica.
Ele não fora abandonado por todos de repente.
Ele construíra uma armadilha e acabara preso dentro dela.
As semanas seguintes foram feitas de telefonemas, declarações e caixas de papelão. Eu não acompanhei cada consequência. Meu advogado cuidou da denúncia, do ressarcimento e da separação. O senhor Álvaro manteve o apartamento reservado para mim até o fim do contrato.
Maurício tentou recuperar o controle de todas as formas.
Mandou flores.
Mandou mensagens de madrugada.
Enviou Teresa para dizer que eu estava destruindo uma família.
Certa noite, ela apareceu na porta com os olhos inchados.
—Ele está arrependido — disse.
—Arrependimento não é pedir de volta a mesma pessoa que você tentou usar.
—Ele perdeu a empresa.
—Eu não tirei nada dele.
Teresa abaixou a cabeça.
—Você não vai perdoá-lo?
—Posso perdoar sem voltar.
Ela chorou em silêncio. Eu abri a porta para que saísse, mas não a convidei a entrar.
No último dia do contrato, esvaziei o quarto de visitas. Retirei as cortinas cor de areia, levei a estante para a sala e joguei fora o carregador que ainda conservava a etiqueta. Restou apenas um prego claro na parede e uma marca retangular onde a luminária ficara.
A gaveta estava vazia.
A casa também.
Coloquei a chave com o protetor azul sobre a mesa da cozinha. Ela já não abria lugar nenhum. Mesmo assim, eu ainda não conseguia jogá-la fora.
Três meses depois, mudei-me para um apartamento menor em Narvarte, perto da escola. As janelas davam para uma árvore cheia de flores amarelas. Pela manhã, eu caminhava até o trabalho com uma garrafa térmica vermelha e deixava o celular no modo silencioso.
Voltei a preparar aulas.
Voltei a dormir a noite inteira.
Voltei a comprar apenas as coisas que eu gostava, sem imaginar se alguém acharia aquilo exagerado.
Ximena abriu uma pequena empresa de organização de eventos com duas amigas. Nunca nos tornamos próximas, mas trocávamos mensagens em datas importantes. Um dia, ela escreveu que tinha devolvido todos os objetos que Maurício comprara para ela.
“Não quero carregar nada que tenha sido construído sobre uma mentira”, disse.
Respondi apenas que esperava que ela ficasse bem.
A investigação terminou semanas depois. Maurício assinou um acordo para devolver parte do dinheiro e responderia pela falsificação e pelo uso indevido dos dados. A gráfica foi fechada. O apartamento permaneceu protegido porque o documento falso fora identificado antes de qualquer registro.
Eu não fui ao encerramento do processo.
Naquela manhã, levei minha sobrinha Clara ao parque. Ela tinha seis anos e carregava uma folha de papel dobrada.
—Fiz uma casa para você — disse.
Abriu o desenho sobre o banco. A casa tinha janelas enormes, uma árvore torta e uma porta pintada de azul.
—Por que a porta é azul? — perguntei.
—Porque é a cor que protege a casa.
Sorri, mas meus olhos arderam.
—E quem mora nela?
Clara pensou um pouco.
—Quem você quiser.
Naquela noite, Maurício enviou sua última mensagem.
“Podemos conversar sem advogados. Eu sei que errei. Ainda somos uma família. Volta para casa.”
Fiquei olhando para a tela por quase um minuto.
Depois escrevi:
“Não existe mais uma casa para a qual eu precise voltar. Cuide das consequências das suas escolhas. Eu cuidarei da minha paz.”
Bloqueei o número.
Não senti triunfo.
Senti espaço.
Na semana seguinte, coloquei a chave da casinha azul dentro de uma pequena caixa de madeira, junto com o aviso de não renovação e a primeira folha do desenho de Clara. Não como lembrança de Maurício, mas como prova de que eu havia recuperado o direito de decidir quem entrava na minha vida.
Meses depois, no primeiro dia frio do inverno, pendurei a caixa numa prateleira perto da porta. A luz da manhã bateu no protetor azul e desenhou uma pequena sombra em forma de casa sobre a parede.
Eu girei a chave uma última vez entre os dedos.
Depois a deixei repousar.
A porta era minha agora.
Missed the beginning?













