Às 3h14 da manhã, o homem mais temido da cidade ergueu a mão diante do meu rosto, e eu fechei os olhos esperando o golpe.
O pronto-socorro do Hospital Memorial São Judas cheirava a água sanitária, café queimado e sangue fresco. Eu estava com as duas mãos enterradas no abdômen de um rapaz quando as portas duplas explodiram contra a parede.
Cinco homens entraram.
Quatro usavam ternos escuros, carregavam armas escondidas sob os casacos e olhavam para cada saída. O quinto carregava um jovem ensanguentado nos braços.
Dominic Gallo.
Eu não precisava ler jornais para saber quem ele era. Todos naquela cidade conheciam aquele rosto: o chefe de uma organização que fazia políticos baixarem a voz e policiais esquecerem perguntas.
— Sala de trauma dois, agora — ordenei.
O médico residente, Aris, apareceu no corredor e congelou ao ver as armas.
— Eu preciso de um cirurgião — ele murmurou.
— Você precisa começar a trabalhar — respondi.
Dominic colocou o rapaz sobre a mesa de aço com uma delicadeza que não combinava com as mãos enormes e cobertas de sangue.
— Meu irmão — disse ele. — Toby.
Cortei a camisa de Toby com a tesoura cirúrgica. O ferimento atravessava a parte inferior do abdômen. A pressão dele despencava no monitor.
— Duas bolsas de sangue negativo, acesso central e um cirurgião! — gritei.
Aris deixou o pacote estéril cair.
— Ele não vai sobreviver à transferência.
— Então pare de falar e me ajude!
Um dos homens de Dominic tocou na arma sob o paletó.
— Salve-o, doutor, ou ninguém sai daqui trabalhando amanhã.
Aris ficou branco. Eu não tive tempo de sentir medo. Medo não fechava artérias.
Mantive a pressão sobre a ferida enquanto Dominic se aproximava.
— Faça alguma coisa — ele disse.
— Estou fazendo. Mas você está bloqueando a luz.
— Eu não vou sair daqui.
— Quer que ele morra na sua frente? Então continue parado.
O monitor emitiu um alarme agudo. Toby soltou um gemido molhado. Meu coração bateu tão forte que senti a pulsação nas luvas.
Dominic me encarou. Havia luto nos olhos dele, mas o luto estava soterrado sob uma raiva antiga.
— Você sabe com quem está falando?
— Sei. E também sei onde está sangrando.
Por um segundo, ninguém respirou.
Então Dominic ergueu a mão.
Meu corpo reagiu antes da minha cabeça. Encolhi os ombros, protegi o pescoço com o queixo e fechei os olhos. Aquela postura não pertencia àquele hospital. Pertencia a outro quarto, outra vida, a noites em que eu aprendera que uma mão levantada sempre trazia dor.
O golpe não veio.
Quando abri os olhos, a mão dele estava parada a poucos centímetros do meu rosto. Dominic olhava para o meu medo como se tivesse acabado de encontrar uma ferida mais profunda que a de Toby.
Ele virou a palma para os próprios homens.
— Todos para fora.
— Chefe, isso não é seguro — protestou o homem de pescoço grosso.
— Eu disse para fora.
As portas se fecharam. Dominic recuou até a parede e levantou as duas mãos.
— Estou longe da mesa — falou baixo. — Diga o que precisa.
Agarrei a bolsa de sangue e a entreguei a ele.
— Aperte com força. Não pare.
Ele obedeceu.
Foi quando Toby abriu os olhos por uma fração de segundo e agarrou meu pulso.
— Não foi… o acidente… — sussurrou.
Depois olhou para Dominic, aterrorizado.
Naquele instante, o monitor apitou de novo, e eu soube que o homem deitado diante de mim não era a única pessoa naquela sala em perigo.
Meu olhar caiu sobre a pequena pasta marrom que um dos homens havia deixado perto da porta. Dominic percebeu.
— Não toque nela — disse.
— Por quê?
Ele não respondeu.
Do lado de fora, alguém bateu três vezes na porta. Dominic virou o rosto. Eu vi sua mão se fechar lentamente.
A maçaneta começou a girar, e uma voz desconhecida anunciou:
— Senhor Gallo, encontramos o que estava procurando…
Dominic estendeu a mão em direção à pasta, e eu…
PARTE 2
Dominic estendeu a mão, mas não pegou a pasta. Primeiro olhou para mim.
— Afaste-se da porta — ordenou.
A voz dele havia mudado. Não era mais a voz de um homem tentando salvar o irmão. Era a voz de alguém que acabara de perceber que estava cercado.
A maçaneta parou.
— Senhor Gallo? — chamou a voz do outro lado.
Dominic aproximou-se da porta sem fazer barulho e fez um gesto para que eu permanecesse atrás da mesa. Eu continuei pressionando o ferimento de Toby, sentindo o calor do sangue atravessar as compressas.
— Quem está aí? — perguntou Dominic.
— Marco. Trouxe os resultados das câmeras.
O rosto de Dominic endureceu.
Marco Bellini era o homem de pescoço grosso que havia ameaçado Aris. Eu o reconhecera de fotografias nos jornais, embora nunca tivesse admitido isso a ninguém.
— Deixe a pasta no chão e recue — disse Dominic.
A porta abriu apenas alguns centímetros. Uma mão colocou uma pasta preta no piso e desapareceu.
Dominic esperou. Só depois abriu a porta, pegou a pasta e fechou novamente.
— O que há nela? — perguntei.
— Nada que diga respeito a você.
— Toby acabou de dizer que não foi um acidente. Isso diz respeito ao paciente.
Ele me encarou.
— Você ouviu o que ele falou?
— Ouvi cada palavra.
Abri uma nova compressa e pedi a ele que a segurasse sobre o meu punho.
— Pressione aqui.
Dominic fez exatamente isso. A manga branca da camisa dele estava rígida de sangue seco. No punho esquerdo, havia uma pequena cicatriz em forma de meia-lua.
— Você é enfermeira há quanto tempo? — ele perguntou.
— Onze anos.
— E sempre fala assim com homens armados?
— Só com os que atrapalham meu trabalho.
Por um instante, quase vi um sorriso nascer no canto da boca dele. Quase.
Abri a pasta. Dentro havia fotografias impressas das câmeras do estacionamento, um mapa do hospital e uma folha com o meu nome escrito à mão.
Clara Hayes.
Abaixo do meu nome estava o endereço da casa onde minha filha, Lia, dormia com a vizinha durante meus plantões.
O ar desapareceu dos meus pulmões.
— Minha filha — sussurrei.
Dominic arrancou o papel da minha mão.
— Quem mais sabe onde ela está?
— Apenas a senhora Alvarez e eu.
— Você ligou para ela esta noite?
— Às duas e quarenta. Lia estava dormindo.
Dominic pegou o telefone e chamou alguém.
— Vá até a Rua Morrow. Agora. Não assuste a criança. Tire a senhora Alvarez de lá e leve as duas para um lugar seguro.
— Não — interrompi. — Eu preciso falar com ela.
Ele me entregou o aparelho.
— Ligue.
A chamada tocou quatro vezes. Ninguém atendeu.
Tentei de novo. Dessa vez, uma voz masculina respondeu.
— Clara? — disse o homem.
O mundo inclinou-se sob meus pés.
Eu conhecia aquela voz. Conhecia a respiração curta antes de cada ameaça, o jeito como ele arrastava a última sílaba do meu nome.
Evan.
Meu ex-marido.
O homem de quem eu fugira três anos antes sem olhar para trás.
— Onde está minha filha? — perguntei.
Ele riu baixo.
— Você sempre foi péssima em esconder as coisas.
Dominic arrancou o telefone da minha mão.
— Se encostar nela, eu mesmo vou encontrar você.
— Dominic Gallo — respondeu Evan. — Finalmente estamos conversando.
Toby se contorceu sobre a mesa. O monitor disparou. Eu voltei a pressionar a ferida enquanto Dominic segurava o telefone junto ao ouvido.
— O que você quer? — ele perguntou.
— O que está naquela pasta. E a mulher que sabe de onde veio.
A ligação caiu.
Por alguns segundos, só ouvimos os alarmes e a chuva batendo contra as janelas estreitas.
Então Toby abriu os olhos outra vez.
— Marco… — murmurou.
Dominic aproximou-se.
— O que Marco fez?
Toby tentou levantar a mão, mas não tinha força.
— Não confie… nele… nem em mim…
Seus olhos fecharam.
A linha do monitor ficou quase reta.
Eu comecei a compressão torácica. Dominic ficou imóvel, como se tivesse esquecido de respirar.
— Clara — ele disse.
— Não fale comigo. Chame o cirurgião.
— Eles estão vindo.
— Então faça alguém chegar antes que ele morra.
Do corredor veio um ruído metálico. Um homem havia puxado a arma.
Dominic olhou para a porta, depois para Toby.
— Marco não trouxe aquelas imagens para me ajudar — falou.
Eu continuei contando as compressões.
— Então para quem ele trouxe?
Dominic pegou a pasta preta e abriu a última folha. O rosto dele perdeu toda a cor.
— Para o homem que pagou pelo tiro.
Naquele momento, o telefone da sala tocou sozinho. No visor apareceu um número desconhecido. Dominic atendeu, e uma voz disse apenas:
— Se quiser sua filha viva, entregue Clara antes do amanhecer…
PARTE 3
— Quem está falando? — perguntou Dominic.
A ligação continuou em silêncio por dois segundos.
Depois uma gravação começou a tocar.
Era a voz de Toby.
— Marco, eu encontrei os pagamentos. Sei que você está vendendo os nomes dos homens de Dominic.
Dominic ficou rígido. Eu parei de contar por um instante, com as mãos ainda sobre o peito de Toby.
A gravação prosseguiu, abafada por ruídos de chuva e motores.
— Você não entende o que está fazendo — dizia Marco. — Seu irmão nunca vai acreditar em você.
— Ele vai acreditar quando ouvir isto.
Um estampido sacudiu a sala.
Toby gemeu na gravação. Depois sua voz ficou distante.
— Você atirou em mim…
— Um tiro é suficiente para calar uma testemunha.
A chamada terminou.
Dominic não se moveu.
— Isso é mentira — disse, mas não parecia falar conosco. — Marco estava comigo na reunião.
— Não estava — respondi. — Ele estava no estacionamento.
Abri a pasta e espalhei as fotografias sobre a mesa auxiliar. A câmera três mostrava Toby entrando pela porta lateral às 2h47. A câmera quatro mostrava Marco chegando seis minutos depois. Na última imagem, Marco segurava uma arma junto ao abdômen de Toby.
— As câmeras foram apagadas do sistema — expliquei. — Mas o hospital mantém cópias temporárias por quarenta e oito horas. Eu encontrei os arquivos quando procurei a identidade do paciente.
Dominic olhou para mim.
— Você copiou as imagens?
— Para um cartão de memória.
Tirei do bolso do uniforme um pequeno pingente de metal em forma de estrela. Por dentro, eu guardava o cartão, embrulhado em plástico para não ser destruído pelo sangue.
— Eu sabia que havia algo errado quando Marco afirmou que Toby chegara sozinho. A câmera do corredor mostrava o contrário.
Dominic pegou o pingente, mas não abriu a mão.
— Por que não me entregou isso antes?
— Porque você entrou aqui carregando uma arma humana nos braços e cercado por homens que ameaçaram o médico. Eu não sabia qual de vocês era o perigo.
Os olhos dele baixaram para a minha mão ferida de tanto pressionar o curativo.
— E agora?
— Agora sei que você está desesperado. Ainda não sei se é confiável.
Toby tossiu. O cirurgião finalmente entrou acompanhado por dois enfermeiros. Aris veio atrás, pálido, mas dessa vez não fugiu.
— Todos para fora — ordenou Dominic.
— Não — falei. — Ele precisa de espaço, não de mais ordens.
Dominic olhou para mim e recuou.
Enquanto levávamos Toby ao centro cirúrgico, o celular de Dominic vibrou. Ele atendeu no corredor.
— Fale.
A voz de Marco explodiu no aparelho, alta o suficiente para todos ouvirem.
— Você acha que Clara salvou seu irmão? Ela é a razão de tudo isso. O marido dela me procurou primeiro.
Meu estômago se contraiu.
— Evan? — perguntei.
Marco riu.
— Evan sabia que ela guardava os arquivos da clínica onde trabalhava. Sabia que ela reconheceria os nomes dos nossos compradores. A mulher não fugiu de um casamento. Ela fugiu carregando provas.
Dominic olhou para mim.
Eu nunca havia contado a ele que, antes do hospital, trabalhara numa clínica particular que lavava dinheiro para empresários e policiais. Eu copiara documentos durante a fuga e entregara tudo a um investigador. O caso fora arquivado depois que o investigador desapareceu.
— Onde está minha filha? — perguntei.
— Em uma casa que você nunca vai encontrar — respondeu Marco. — A menos que Clara entregue o cartão.
Dominic fechou o telefone.
— Você tem mais provas além desse cartão?
— Tenho um caderno. Está escondido onde Evan nunca procuraria.
— Onde?
— No fundo falso da caixa de costura da senhora Alvarez.
Dominic fez uma ligação. Ninguém atendeu.
Então a porta do centro cirúrgico abriu e uma enfermeira surgiu correndo.
— O paciente entrou em parada. O cirurgião precisa de autorização para abrir o tórax.
Dominic ficou paralisado.
— Faça — eu disse.
— Clara — ele começou.
— Faça!
Ele assentiu.
Minutos depois, um telefone descartável tocou no bolso do paletó dele. Dominic atendeu no viva-voz.
Era Evan.
— Quero Clara na antiga estação ferroviária antes das cinco. Sozinha. Se ela não vier, Lia morre.
— Se tocar nela — disse Dominic —, você não terá tempo de se arrepender.
— Não estou falando com você.
Evan desligou.
O relógio do corredor marcava 4h02.
Dominic virou-se para mim.
— Você não vai sozinha.
— Ele exigiu que eu fosse.
— Ele exigiu muitas coisas esta noite. Já ignoramos algumas.
— Minha filha está nas mãos dele.
— E o homem que a segura quer exatamente que você pense que não tem escolha.
Ele pegou o pingente de estrela e o colocou na palma da minha mão.
— Vamos buscar Lia. Mas antes precisamos descobrir uma coisa.
— O quê?
Dominic olhou para as portas fechadas da cirurgia.
— Por que Evan sabia que Toby encontraria você esta noite?
Nesse instante, o telefone interno tocou. Uma funcionária atendeu no corredor e ficou escutando, imóvel. Depois veio até nós com os olhos arregalados.
— Senhora Hayes, há alguém na recepção perguntando por você.
— Quem?
Ela engoliu em seco.
— Um homem que diz ser seu pai…
A gravação fez Dominic ouvir a própria verdade…
Eu achava que o maior perigo estava naquela sala. Estava enganada. O final muda completamente quem precisava ser salvo.
“Eu não vou mais proteger você das consequências.”
Dominic abaixou a cabeça.
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