PARTE 4
…— Greg — Marta disse.
O nome caiu na biblioteca como uma lâmina.
Eu olhei para Leo, mas ele já estava olhando para mim.
— O que Greg tem a ver com meu pai?
Marta colocou o telefone no viva-voz. A voz de Greg veio abafada, cercada pelo som de um motor.
— Tessa, escute com atenção. Seu pai está comigo. Eu o tirei da clínica antes que os homens de Vincenzo chegassem.
— Onde você está?
— Na antiga estação de carga, perto do rio. Tenho um médico. Mas vocês precisam sair agora.
Leo se aproximou do telefone.
— Davis, diga quem você é.
Houve um silêncio breve.
— O homem que passou dois anos seguindo as contas de Vincenzo.
Leo ficou imóvel.
— Você trabalha para a polícia?
— Não. Trabalho para a agência que sua mãe procurou antes de desaparecer. E não estou sozinho.
Do lado de fora, um carro arrancou sobre o cascalho. Vincenzo havia sumido pela porta lateral.
Leo guardou a arma.
— Ele vai para a estação.
— Então vamos primeiro — respondi.
— Não. Você fica aqui.
Eu agarrei o documento de Helena.
— Passei um ano obedecendo ordens nesta casa. Não vou passar mais um minuto esperando homens decidirem o que fazer com a minha vida.
Leo me encarou.
— Isto não é uma discussão.
— É exatamente uma discussão. Você me prendeu nesta sala, escondeu a verdade e tentou cancelar meu encontro como se eu fosse propriedade sua. Se quiser minha confiança, comece me tratando como uma pessoa.
A mandíbula dele se contraiu.
Por fim, ele assentiu.
— Você fica ao meu lado.
— Eu decido onde fico.
— Certo.
Foi a primeira vez que Leo Santoro aceitou uma condição sem tentar dobrá-la.
Saímos pela passagem subterrânea da mansão. A água da chuva escorria pelas paredes de tijolos. O broche de andorinha estava preso ao meu vestido, exatamente sobre o coração.
Chegamos à estação em oito minutos.
Greg apareceu entre dois vagões abandonados, usando o mesmo suéter bege que eu conhecia do café. Mas havia sangue seco na manga e uma pistola presa ao cinto.
Atrás dele, meu pai estava sentado numa cadeira dobrável, muito magro, com os olhos fechados.
— Pai.
Ele abriu os olhos.
— Minha menina.
Caí de joelhos diante dele. As mãos dele tocaram meu rosto com uma força fraca, mas real.
— Você está vivo.
— Eu estava esperando você parar de acreditar em todo mundo — ele murmurou.
— Eu não sabia de nada.
— Eu sei.
Greg se aproximou.
— Temos pouco tempo. Vincenzo encontrou os arquivos, mas não sabe que Helena fez cópias digitais. As cópias foram enviadas para três pessoas: um promotor, um jornalista e um juiz federal.
Leo olhou para ele.
— Por que não entregou tudo antes?
— Porque o juiz estava comprado. Precisávamos da declaração original e da gravação para derrubar todos de uma vez.
Sirenas surgiram ao longe.
Leo sacou a arma, mas Greg levantou a mão.
— Não são homens de Vincenzo. São agentes federais.
Leo riu sem alegria.
— Você trouxe a polícia para minha estação?
— Trouxe a verdade para um lugar onde ela não pudesse ser enterrada.
Vincenzo apareceu no alto da plataforma, segurando uma arma contra a própria têmpora. Ao lado dele estavam dois homens armados.
— Ninguém se move! — gritou.
Leo deu um passo à frente.
— Acabou.
— Você sempre foi um menino fraco, assim como seu pai.
Um agente surgiu atrás dele.
— Vincenzo Santoro, largue a arma.
Vincenzo virou o rosto por uma fração de segundo. Foi o bastante.
Os agentes avançaram. Um dos homens correu, o outro largou a arma. Vincenzo tentou atirar, mas Leo o atingiu no pulso. A pistola caiu nos trilhos.
Eu esperava sentir satisfação.
Não senti.
Só cansaço.
Vincenzo foi algemado enquanto gritava que todos nós morreríamos sem ele. Leo permaneceu parado, olhando para o tio. Quando ouviu a gravação da minha mãe ser reproduzida pelos agentes, o rosto dele mudou.
A própria voz de Vincenzo, registrada numa segunda fita, ecoou pela estação:
— Daniel vai morrer devagar. Helena vai desaparecer. E o garoto nunca saberá que a família inteira foi construída sobre o medo.
Leo fechou os olhos.
Ele ouviu tudo sem se defender.
Quando a gravação terminou, ele sussurrou:
— Eu passei a vida me tornando exatamente o homem que ele queria que eu fosse.
Eu fiquei ao lado dele, mas não toquei sua mão.
— Você ainda pode escolher o que fará depois disso.
Na manhã seguinte, a mansão foi cercada por agentes. As contas de Vincenzo foram congeladas. Os registros foram entregues à promotoria. O juiz comprado perdeu o cargo e foi preso semanas depois.
Leo também entregou os livros da família.
— Você vai ser preso? — perguntei.
Ele me olhou através da mesa da biblioteca.
— Talvez. Há coisas que fiz para manter meus homens obedientes. Não vou fingir que sou inocente porque Vincenzo era pior.
— E o que vai fazer?
— Fechar os clubes, pagar os funcionários e testemunhar.
Foi o que fez.
Durante os dias seguintes, Leo tentou controlar cada consequência como controlara tudo na vida. Ligou para advogados, convocou contadores e ordenou que os homens não retaliasssem ninguém.
Mas o advogado mais antigo recusou-se a continuar.
— Não vou defender mentiras que o senhor mesmo decidiu abandonar — disse ele, deixando a pasta sobre a mesa.
Leo não o impediu.
Ele começou a ouvir as próprias ordens antigas nos arquivos de segurança. Greg encontrou gravações das noites em que Leo ameaçava homens, expulsava sócios e dizia que medo era a única língua compreendida naquela cidade.
Sentado diante do aparelho, Leo escutou sua própria voz.
— Ninguém sai desta família sem minha permissão.
A gravação terminou.
Ele ficou olhando para o vazio.
— Eu disse isso? — perguntou.
— Disse.
— Eu parecia um estranho.
— Talvez fosse mais fácil acreditar nisso.
Ele baixou a cabeça.
— Sinto muito por ter segurado você.
— Eu sei.
— Não, Tessa. Você não precisa dizer que sabe. Eu fiz você ter medo de mim.
Aquela foi a primeira desculpa que não tentava pedir nada em troca.
Meu pai deixou a clínica três semanas depois. Ainda precisava de fisioterapia, mas voltou a reclamar do café, do frio e da televisão barulhenta. Isso me pareceu uma vitória maior do que qualquer sentença.
No quarto onde eu vivera na mansão, encontrei apenas o uniforme cinza pendurado atrás da porta. Sobre a cama estava a pequena andorinha de cobre, que eu havia esquecido no criado-mudo.
Levei o broche comigo.
Não levei mais nada.
Dois meses depois, mudei-me com meu pai para uma cidade costeira, longe dos armazéns, dos carros escuros e dos corredores onde cada silêncio escondia uma ameaça. Aluguei uma casa com janelas azuis e comecei a trabalhar numa oficina de restauração de móveis.
Todos os dias, às oito da manhã, eu lixava madeira, passava óleo nas mesas e deixava as janelas abertas para entrar o cheiro do mar.
Meu pai caminhava devagar pelo quintal. Greg aparecia aos domingos, ainda usando suéteres sem graça, mas agora falava menos sobre o cachorro e mais sobre a própria infância.
Eu não comecei um romance imediatamente.
Comecei uma vida.
Certa tarde, minha pequena sobrinha Clara desenhou uma casa vermelha com três pessoas na varanda. Prendeu o desenho na geladeira com um ímã em forma de peixe.
— Esta é sua casa nova? — perguntei.
— É a casa onde ninguém manda você ficar com medo — ela respondeu.
Eu precisei me virar para esconder as lágrimas.
Naquele inverno, caiu o primeiro floco de neve da temporada. Meu pai dormia na sala, com um cobertor sobre as pernas. A chaleira apitava na cozinha. Pela primeira vez em muitos anos, nenhum telefone tocava com uma ameaça.
Então chegou uma mensagem de Leo.
Não era uma ordem.
Ele escreveu que vendera a mansão, encerrara os negócios ilegais e continuava prestando depoimentos. Disse que não esperava resposta. No fim, acrescentou apenas: Aprendi que amar alguém não significa trancá-la numa casa para mantê-la segura.
Fiquei muito tempo olhando para a tela.
Depois respondi:
— Espero que você se torne alguém de quem não precise fugir.
Apaguei o contato.
Não por ódio.
Por paz.
Meses depois, Leo apareceu na oficina. Parou do lado de fora, sem entrar, enquanto eu restaurava uma escrivaninha antiga.
— Posso falar com você? — perguntou.
Eu coloquei a lixa sobre a bancada.
— Pode.
— Não vim pedir que volte. Vim devolver isto.
Ele estendeu a mão. Nela estava uma caixa pequena de madeira. Dentro havia documentos da minha mãe, fotografias e a gravação original.
— É seu — disse. — Sempre foi.
— Obrigada.
— Você está feliz?
Olhei para as janelas abertas, para o quintal e para meu pai dormindo ao sol.
— Estou tranquila.
Leo assentiu, como se aquela resposta doesse e, ao mesmo tempo, fosse a única que ele merecia ouvir.
— Tranquilidade combina com você.
— Mais do que medo.
Ele sorriu sem alegria.
— Adeus, Tessa.
— Adeus, Leo.
Esperei até o carro dele desaparecer na rua.
Depois peguei o broche de cobre em forma de andorinha e o prendi no bolso do meu avental. A rachadura no metal ainda estava ali. Mas agora eu gostava dela.
Era a marca de algo que havia sobrevivido.
Fechei a janela quando a neve começou a cair mais forte.
A andorinha ficou junto ao meu coração.
E, pela primeira vez, eu não precisei voar para escapar.
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